206 - A MAÇONARIA E O BODE
Por Ir.'. Maurício da Cunha Müller
A associação entre a Maçonaria e o bode é, em primeiro momento, construção baseada em interpretações externas marcadas por desconhecimento e projeções simbólicas indevidas pois tal relação não encontra respaldo na literatura oficial da Ordem. Em demais momentos, configura-se como um fenômeno histórico que se consolidou ao longo do tempo por meio da sobreposição de elementos distintos. A compreensão histórica dessa associação exige a análise de 6 diferentes camadas simbólicas que contribuíram para sua formação.
1. As Raízes
Antigas: O Contexto Bíblico
A origem mais remota
dessa associação remete à Antiguidade, especificamente ao Antigo Testamento. No
livro de Levítico (16, 8–10; 16, 21–22), descreve-se o rito do “bode
expiatório”, no qual o animal funcionava como veículo simbólico para a remoção
das iniquidades do povo. Conforme observa Jacob Milgrom, o animal operava como
meio de eliminação do pecado, sem possuir agência moral própria (MILGROM,
1991).
“ (…) Arão porá ambas as mãos sobre a cabeça do bode vivo, e sobre ele confessará todas as iniquidades dos filhos de Israel (…) e o bode levará sobre si todas as iniquidades deles para uma terra solitária.”(Levítico 16:8–10; 21–22)
2. O
Fortalecimento da Ordem e a Oposição Religiosa
Com o crescimento da Maçonaria, sua natureza discreta e seus rituais simbólicos favoreceram o surgimento de suspeitas externas. A oposição foi acentuada ao ponto de ser formalizada em 1738 com a bula In eminenti apostolatus, promulgada pelo papa Clemente XII, que condenava a participação de católicos em associações maçônicas (CLEMENTE XII, 1738). Esse contexto contribuiu para a formação de discursos antimaçônicos que atribuíram à Ordem práticas inexistentes ou mal interpretadas.
3. O Século
XIX: Baphomet e a Construção do Imaginário
A associação visual
entre a figura do bode e construções simbólicas de matriz esotérica
consolida-se no século XIX, quando Éliphas Lévi apresenta a imagem do
“Baphomet” em Dogme et Rituel de la Haute Magie (LÉVI, 1856). Trata-se
de uma figura simbólica voltada à representação da dualidade e do equilíbrio
entre opostos, e não de um objeto de culto.
A errônea associação
entre o Baphomet e demônios não é originária da obra de Éliphas Lévi, mas sim resultado
de interpretações posteriores. Conforme demonstra Julian Strube (2016), “...associação
entre o Baphomet, o culto ao diabo e o satanismo foi estabelecida [...] desde o
final do século XIX”. Ademais, a Bauer (S.D.) aponta na Encyclopaedia Britannica que a Maçonaria foi “falsamente acusada” de
adorar tal figura, evidenciando o caráter externo e polêmico dessas leituras.
Nesse contexto, a literatura mostra que a imagem do bode foi cercada por “mitos e mal-entendidos”, sendo frequentemente interpretada como demoníaca, o que revela a construção de um imaginário religioso popular marcado por leituras dualistas e sensacionalistas.
4. Práticas
Fraternais e Humor Iniciático (Final do Século XIX)
No final do século XIX, especialmente nos Estados Unidos, difundiram-se entre sociedades fraternais práticas humorísticas de iniciação conhecidas como “riding the goat” (“montar o bode”). Essas práticas estavam associadas a trotes de ingresso em fraternidades e ordens sociais, de caráter lúdico e não ritualístico, funcionando como mecanismos simbólicos de integração grupal (FREEMASON INFORMATION, 2016).
5.
Reinterpretações Modernas: Do Símbolo ao Imaginário
Em interpretações
contemporâneas, a figura do bode passou a ser associada simbolicamente à ideia
de silêncio — aquilo que lhe é confiado não retorna. Conforme analisa o
pesquisador maçônico Kenyo Ismail, trata-se de uma construção simbólica moderna
baseada na atribuição do silêncio do bode citado na Bíblia Sagrada(ISMAIL,
2011). Essa leitura encontra paralelo em características biológicas do próprio
animal Bode Capra hircus, reconhecido por sua adaptabilidade e
resistência o que favoreceu associações com resiliência em ambientes adversos (NAWROTH;
BRETT; MCELLIGOTT, 2016); (FAO, 2012).
Cabe ainda dizer que na era medieval foi
cogitada a ligação dos templários a idolatria de um ser de chifres. Também se
cogita o suposto mal entendimento entre a palavra brother (irmão em inglês) com
a palavra bode. Existem lendas e depoimentos sobre corrida de montadores de
bodes. Até mesmo bodes voadores.
E, também se ventila a hilária conotação de que bode é o irmão que não lava o balandrau e que assim o mesmo exala mau cheiro.
6. Atualidade
Na atualidade, observa-se que essa mesma
figura, Bode, antes utilizada em tom acusatório ou satírico, passou a ser
amplamente ressignificada no ambiente maçônico. Em meios digitais — como sites,
canais de vídeo e redes sociais — é cada vez mais comum encontrar conteúdos
ligados à Maçonaria ilustrados com a
imagem do bode, empregado de forma amistosa, simbólica e até identitária. Tal
presença não indica qualquer idolatria doutrinária formal, mas revela a
consolidação de um processo cultural no qual o símbolo anteriormente imposto de
fora é apropriado e reinterpretado internamente. É característica do maçom
transformar o meio onde está inserido transformando infortúnios em bençãos.
Nesse contexto, o bode deixa de carregar conotações negativas e passa a
representar, de maneira leve e acessível, valores como fraternidade,
resiliência e discrição, funcionando como elemento de comunicação e coesão
entre irmãos, especialmente fora do ambiente ritualístico.
Tão aceita a figura do bode, que passou a ornamentar camisetas, bonés, jaquetas, canecas, adesivos e diversos objetos de uso cotidiano associados ao universo da Maçonaria. Essa presença evidencia o grau cultural alcançado pela alegoria, que se consolida como elemento identitário em determinados contextos fraternais. Ao transitar do discurso acusatório para vínculos de pertencimento e assim uma leitura bem-humorada da própria tradição.
Conclusão
A presença do Bode
no imaginário maçônico não corresponde a símbolo doutrinário nem a elemento
iniciático, mas a construção cultural espontânea. Sua força reside na
simplicidade com que representa ideias associadas à resiliência. Então, permanece a premissa fundamental: Assim como Bode
não fala o Maçom deve manter a boca
fechada enquanto lapida a pedra.
REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO
BARBER, Malcolm. The Trial of the Templars. Cambridge: Cambridge University Press, 1994. Disponível em: https://books.google.com/books?id=3pK1QgAACAAJ.
BAUER,
Patricia. Baphomet. In: Encyclopaedia Britannica. [S.d.] Disponível em: https://www.britannica.com/topic/Baphomet
BÍBLIA. Português. Almeida Revista e Atualizada.
São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993. Disponível em: https://www.bibliaonline.com.br/ara/lv/16.
BOUCHER, Jules. A simbólica maçônica. São Paulo: Pensamento, 2008. Disponível em: https://archive.org/details/asimbolicamaconi00bouc.
CLEMENTE XII. In eminenti apostolatus specula. 1738. Disponível em: https://www.papalencyclicals.net/clem12/c12inemengl.htm.
FAO. Phenotypic characterization of animal genetic resources. Rome: FAO, 2012. Disponível em: https://www.fao.org/3/i2686e/i2686e.pdf
FREEMASON INFORMATION. Riding the Goat and fraternal initiation traditions. 2016. Disponível em: https://freemasoninformation.com.
GRANDE ORIENTE DO BRASIL. Código Disciplinar Maçônico. Brasília: GOB, 2016. Disponível em: https://www.gob.org.br.
ISMAIL, Kenyo. O bode na Maçonaria. No Esquadro, 2011. Disponível em: https://noesquadro.com.br/o-bode-maconaria/.
LÉVI, Éliphas. Dogme et Rituel de la Haute Magie.
Paris: Germer Baillière, 1856. Disponível em: https://archive.org/details/dogmeetritueldel00levi.
MILGROM, Jacob. Leviticus 1–16. New York: Doubleday, 1991. Disponível em: https://books.google.com/books?id=0Jg3DwAAQBAJ.
NAWROTH, Christian; BRETT, Jennifer; MCELLIGOTT, Alan. “Goats display audience-dependent human-directed gazing behaviour in a problem-solving task”. Biology Letters, 2016. Disponível em: https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rsbl.2016.0283.
STRUBE, J. The
“Baphomet” of Eliphas Lévi: Its Meaning and Historical Context.
Correspondences, v. 4, n. 1, 2016. Disponível
em:
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