Por Pierre Gandonniere Costuma-se falar da Bíblia, da Torá, do Alcorão, do Antigo e do Novo Testamento como se fossem livros únicos, estáveis e perfeitamente definidos. Estritamente falando, nenhum deles existe dessa forma. Ainda assim, esses textos deram origem às três grandes religiões monoteístas, conhecidas como as “religiões do Livro”. O paradoxo é evidente. No início, não havia um livro, mas a Arca da Aliança. Segundo a tradição, construída por ordem divina transmitida a Moisés no Monte Sinai, ela permitia ao povo hebreu levar consigo seu Deus único. No seu interior estariam as tábuas da Lei — o Decálogo —, o primeiro texto escrito que anunciaria, de modo embrionário, um livro sagrado. Com a destruição do Primeiro Templo de Jerusalém, em 586 a.C., a Arca desapareceu, levando consigo qualquer vestígio material desse texto original. O que hoje chamamos de Antigo Testamento não é um livro, mas uma coleção de até 46 textos, reunidos ao longo de séculos. São fragmentos de orig...