207 - LETÉ E MNEMOSINE, ELOGIO DO ESQUECIMENTO

por Paolo Maggi

Jorge Luis Borges, em 1942, escreve o conto Funes, o memorioso. Trata-se da história de um homem que, após um traumatismo craniano, desenvolve a capacidade de se lembrar de tudo o que vê e lhe acontece: cada palavra que lê, cada folha de cada árvore e cada nuvem que já viu em sua vida, em suas inúmeras formas. À primeira vista, pareceria ter recebido um dom maravilhoso. No entanto, Funes, com sua memória total, era praticamente um imbecil. Sua mente, entulhada de dados, era incapaz de desenvolver qualquer ideia superior. Seu mundo era feito de detalhes inumeráveis e totalmente inúteis.

Penso que Borges se inspirou na Segunda consideração intempestiva, de Nietzsche, que escreve: “Imaginai o caso extremo de um homem que não possuísse de modo algum a força de esquecer, que fosse condenado a ver em toda parte um devir: um homem assim não acreditaria mais no seu próprio ser, não acreditaria mais em si, veria todas as coisas fluindo umas das outras em pontos móveis e se perderia nesse rio do devir... Para toda ação é necessário o esquecimento, assim como para a vida de todo ser orgânico é necessária não apenas a luz, mas também a escuridão”. Sim, porque as capacidades da nossa mente são duas: a de lembrar e a de filtrar, isto é, de esquecer.

“Conhecer é recordar”

O homem, desde sempre, teve um grande desejo: conservar ao máximo a memória das coisas passadas. A memória escrita era um bem precioso em tempos nos quais deixar vestígios da própria passagem era difícil; os livros eram poucos, difíceis de encontrar e facilmente perecíveis. Mas também se fazia de tudo para manter viva e eficiente a memória biológica. Por isso muitos mestres ilustres — Cícero, Pico della Mirandola, Marsilio Ficino, Giordano Bruno — cultivavam a mnemotécnica, a arte de conservar e preservar a memória.

Para nós, hoje, filhos da civilização do computador, tudo é mais fácil, porque a rede tem uma capacidade de acumular e processar dados praticamente infinita. A internet lembra tudo por nós. Mas isso não nos basta. Assim, pretendemos que nossas mentes registrem e administrem imensas massas de dados, como se fossem computadores. E, já que os computadores possuem a função valiosa chamada multitarefa, ou multitasking, isto é, a capacidade de executar vários programas ao mesmo tempo, exigimos o mesmo do nosso cérebro. Assim, simultaneamente, trocamos SMS e mensagens no WhatsApp, respondemos e-mails e telefonemas. E talvez, nesse meio tempo, dirigimos um carro ou realizamos nosso trabalho.

Mas, além dos riscos previsíveis a que esse estilo de vida imprudente nos expõe, hoje muitos estudos científicos demonstram claramente que o excesso de trabalho mental chega a um ponto em que o rendimento cai vertiginosamente. Em suma, como Nietzsche e Borges já haviam previsto, o excesso de memória pode nos tornar imbecis.

De resto, já Platão considerava o esquecimento o pressuposto indispensável de todo renascimento. No mito de Er, ele conta que as almas, depois de escolherem livremente o modelo de sua vida, vão até as margens do Letes e bebem sua água, que apaga toda lembrança da vida anterior. Para os gregos e romanos, de fato, o Letes é o rio do esquecimento. Mas não apenas isso: Letes também é o nome de uma divindade, igual e oposta à sua irmã gêmea, Mnemósine, a deusa da memória. E não é por acaso que essas duas figuras antitéticas são apresentadas por Hesíodo, na Teogonia, como inseparáveis e complementares.

O esquecimento é indispensável para viver, para nos proteger do excesso de informações, para permitir à nossa mente o repouso necessário para se regenerar. E, além disso, o esquecimento das nossas tristezas e do sentimento de frustração que as inevitáveis derrotas trazem consigo nos proporciona alívio. Ele representa o pressuposto indispensável para recomeçar, para renascer a uma nova vida.

Letes e Mnemósine no horizonte de um politeísmo moderado

Frequentemente, a ciência confirma as intuições dos grandes pensadores da Antiguidade. E assim descobriu-se que nosso cérebro possui dois modos distintos de atenção: o primeiro está ativo quando estamos envolvidos em uma tarefa e não podemos nos distrair — é a Task Positive Network (TPN). O outro está ativo quando deixamos nossos pensamentos vagarem livremente, quando sonhamos acordados, quando, em outras palavras, nos esquecemos — pelo menos por um tempo — de tudo o que ocupa nossa mente. É a Task Negative Network (TNN).

Trata-se de verdadeiras redes formadas por neurônios, distribuídas como circuitos elétricos em nosso cérebro. Se refletirmos bem, Letes e Mnemósine sempre estiveram dentro de nós.

Esse mecanismo dual presente no cérebro é um fruto sofisticado da evolução da mente humana e nos permite proteger-nos dos riscos representados pelo excesso de atenção e de informações. Certamente, quando realizamos tarefas que exigem extrema concentração, não podemos nos dar ao luxo de nos distrair e devemos nos empenhar ao máximo por longos períodos. Mas depois o cérebro precisa obrigatoriamente entrar em pausa. Se isso não ocorrer, o colapso da nossa capacidade de concentração será inevitável. E a alternância entre TPN e TNN, entre Letes e Mnemósine, está na base do bom funcionamento da nossa inteligência.

O TNN (ou, se quisermos, Letes) também está na origem dos nossos momentos de maior criatividade, quando os artistas produzem grandes obras de arte. É também esse o modo de pensamento que conecta ideias aparentemente distantes, permitindo aos cientistas resolver problemas que até pouco antes pareciam insolúveis. São momentos em que a solução parece surgir do nada.

Memória e esquecimento, Mnemósine e Letes, são um par inseparável de opostos ao qual, como lembrava Harald Weinrich no livro de título sugestivo Lethe. Arte e crítica do esquecimento (Il Mulino, Bolonha, 1999), devemos reservar um “politeísmo moderado” que saiba oferecer sacrifícios a ambas as divindades. 

Fonte: Revista Officinae

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