Reflexões a partir dos ensinamentos da Maçonaria e do Talmude
“A pessoa só é humilde, nas raríssimas
ocasiões em que é – no absoluto anonimato. Quando a luz dos refletores, hoje
gigantescos e em toda a parte, se acende sobre a humildade, a mesma vai pro
brejo. E a vaidade, consciente ou inconscientemente reprimida, surge imensa, irrefreável,
cobrando todos os seus direitos, juros e lucros cessantes. Embora continue escondida
(para quem não conhece a natureza humana) sob um blindado de falsa humildade”. (texto de autoria de
Millôr Fernandes, citado no Vade-Mécum Maçônico, Ir.’. João Ivo Girardi, 2008,
pág. 274)
INTRODUÇÃO
Num mundo, tal como esse que vivemos hoje em
dia, onde o hiperconsumo é sinônimo de vida plena, onde a visão pragmática e
mecanicista acaba superando a humanista, onde “ter” é mais importante que
“ser”, onde o orgulho, a ostentação, as vaidades e a prepotência são
estimuladas a torto e a direito, onde abundam falsos profetas e onde as fake- news
ganham mais relevância no dia-a-dia que a verdade verdadeira, verdade absoluta
e verdade incontestável, a humildade como uma virtude se enquadra dentro
daquele ditado “na prática, a teoria é outra”. E num primeiro exame, portanto,
superficial, com base no que acabou de ser citado, o mais cômodo seria
estabelecer logo uma relação direta do humilde com aquele que nada de valor
possui e que, vive em completa pobreza material, mas, o objetivo aqui é falar
sobre a humildade que é considerada uma das virtudes morais clássicas, assim
como, da humildade que se faz necessária para se conviver bem em sociedade.
Se recorrermos a um dicionário logo
perceberemos que a palavra “humildade” possui inúmeros sinônimos, assim como,
acepções. E não deixa de parecer até algo bizarro o fato dessa palavra ser
considerada “rica” em função dessa sua ampla variedade de sinônimos e acepções.
Citemos algumas delas: ausência completa de
orgulho, pobreza, modéstia, despojamento, submissão, inferioridade,
simplicidade, passividade.
A verdade é que a humildade não é tão simples
de definir. E a complexidade, se resolvermos nos aprofundar é que há entre 5 e
10 acepções principais e aproximadamente 100 sinônimos, o que a torna muito
abrangente. Vamos sintetizar isso: a humildade possui tantas acepções e
sinônimos que sob o seu guarda-chuva podem estar contidas algumas das virtudes
que mais admiramos como também traços de submissão e pobreza.
Para não ficarmos numa posição reducionista
vamos tentar alongar aqui o seu significado: a humildade é uma nobre aquisição
do espírito, e de parte daqueles que reúnem qualidades outras, como sejam, a
complacência, a tolerância, a benevolência e a indulgência. Isso está longe de
significar que tais qualidades ou virtudes abundem em nosso mundo, pelo contrário,
todas atravessam por um período (longo) de escassez. É só olhar para os lados,
isso é auto evidente, desde que estejamos dispostos a enxergar a realidade.
Sendo do espírito, a humildade se contrapõe à materialidade, esta última, cada
vez mais presente no mundo de hoje. E quem é pobre ou é modesto, cedo ou tarde
vai se deparar e conhecer a arrogância, a prepotência e a soberba bem de perto,
pois, a história tem registrado que (salvo exceções) quem detém o poder, manda
e não pede. No dia a dia da maioria das pessoas simples e humildes, e
independente da época a pergunta seguinte nunca sai da moda e que é sempre feita
com muita arrogância: “Você sabe com quem está falando”?
BUSCANDO MAIS DEFINIÇÕES DE HUMILDADE
Humildade vem do termo latino humilitas.
É a qualidade do ser humilde, e que contrasta com a atitude da arrogância. A
humildade é uma condição na qual inexiste a arrogância e o orgulho é rejeitado.
A humildade pode ser considerada ainda, uma atitude de modesta autoestima.
E ser humilde significa estar consciente de que
se é possuidor de valor próprio e de talentos, então, por ser uma virtude que
está baseada no autoconhecimento, não tem nada a ver com demonstração de
fraqueza e submissão, o que vai na direção contrária do indivíduo soberbo que
vive superestimando suas capacidades e tentando impor dominância.
A HUMILDADE DO PONTO DE VISTA MAÇÔNICO
Do ponto de vista maçônico, na definição do
Irmão Nicola Aslan em seu dicionário enciclopédico está posto:
“Virtude que conduz o indivíduo à
consciência de suas limitações, de suas fraquezas e do seu pouco mérito, pelo
que não se deixa lisonjear pelos elogios. É uma das virtudes mais recomendadas
pela Maçonaria e serve de base para alguns de seus Graus.” (Aslan, 2012,
pág. 583)
E no Vade-Mécum Maçônico, de autoria do Irmão
João Ivo Girardi, podemos ler com relação a este verbete:
“4. Humildade não significa
servilismo, ela é uma virtude e não um defeito. Uma demonstração de humildade é
dada em nossas Lojas, quando após a Venerabilidade e, em seguida um ano de
Mestre Instalado (como Venerável mais moderno) o Irmão passa a ocupar um cargo
no Ocidente como Guarda do templo, uma função hierarquicamente inferior.” (Girardi,
2018, pág. 274)
Sem generalizar, aqui talvez seja bem possível
de se refletir um pouco mais sobre o ditado que diz que “na prática a teoria
é outra”.
No mundo moderno, muitos dos valores
tradicionais tidos como pilares que nortearam o comportamento em sociedade para
a boa convivência e que serviram na condução de várias gerações são agora
atropelados diariamente, substituídos pelo individualismo exacerbado de uma
sociedade orgulhosa.
Nós Maçons temos o dever de exaltamos essa
virtude chamada humildade, essa virtude que buscamos praticá-la de contínuo em
nossos templos maçônicos, humildade esta que está fundamentada em princípios
que envolvem a tolerância, o respeito, a igualdade e fundamentalmente, o eterno
polimento da nossa “pedra bruta”, para cumprirmos nosso papel na sociedade e
servindo de contraponto aos tipos de comportamentos que vem se disseminando no
mundo profano, onde a hipervalorização do “eu”, por exemplo, por si só já responde
pelo rompimento da prática de muitos dos valores ditos tradicionais.
DOS ENSINAMENTOS SOBRE A HUMILDADE E
SIMPLICIDADE EXTRAÍDOS DO TALMUDE (1)
A humildade (anavá, em hebraico) é tida como a
mais difícil e a mais bela das qualidades, assim como, por ser entregue à mais
íntima consciência da pessoa, é a mais fugaz de todas as qualidades.
Vejamos a seguir, um processo espiritual,
retirado do Talmud, que diz assim:
“O estudo conduz à precisão, a precisão
conduz à vigilância, a vigilância conduz ao asseio, o asseio conduz à
moderação, a moderação conduz à pureza, a pureza conduz à virtude, a virtude
conduz à humildade, a humildade conduz ao medo do pecado, o medo do pecado conduz
à santidade, a santidade conduz ao espírito sagrado, e o espírito sagrado
conduz à vida eterna.”
Na verdade, cada um desses passos é um processo
espiritual por si só, e que devem ser colocados em prática por todos aqueles
que escolheram o caminho judaico da iluminação, mas, nada que não sirva de
exemplo para a humanidade inteira. Podemos perceber que está evidenciada aí a
relação virtude-humildade, assim como, o quanto ela é fundamental para que o
homem judeu alcance a condição de um “tzadik” (que em hebraico, significa homem
justo, probo). A humildade, já consubstanciada então, em virtude, é um dos predicados
fundamentais.
E o homem Maçom, o que segue os preceitos da
Ordem, o que lapida a sua pedra bruta constantemente, o que tem consciência do
trabalho que deve realizar, este sabe e tem o dever de fortalecer, através do
exercício ininterrupto, a humildade, pois, então estará também exercitando a
sua tolerância, base para a aceitação do outro, dentro e fora do templo.
Quando utilizada uma linguagem mais moderna, o
processo espiritual que foi descrito anteriormente pode exibir a seguinte
roupagem:
“o aprendizado conduz ao respeito, o
respeito conduz à generosidade, a generosidade conduz a atos de bondade
amorosa, os atos de bondade amorosa conduzem à moderação no estilo de vida, a
moderação no estilo de vida conduz à pureza de pensamentos, a pureza de pensamentos
conduz à alegria, a alegria conduz ao desprendimento, o desprendimento conduz à
reverência, a reverência conduz à equanimidade, a equanimidade conduz a estados
mentais extraordinários, e os estados mentais extraordinários conduzem à vida
eterna. (consciência de Deus).”
No excerto acima, quando é citada a “moderação
no estilo de vida”, certamente se está falando em algo que remete à
simplicidade, ou em uma condição que seria básica para o homem moderno, onde
muitos são dados à ostentação gratuita.
Lembrem-se: foram vários aspectos citados lá na
introdução a respeito do mundo em que vivemos hoje em dia, onde parece que a
prevalência vai no sentido de exibir o máximo que um puder do seu poder, das
suas posses ou do seu círculo de influências.
Agora há pouco recebi um livro que havia
encomendado e que aguardava ansioso: “La sociedad de la decepción” de autoria
de um dos meus filósofos preferidos, Giles Lipovetsky. Como podem ver o seu
título “A sociedade da decepção” já diz muito, e folheando algumas das suas
páginas deparei-me com os seguintes trechos:
“el futuro se concibe siempre como
superior al presente...”, e mais adiante: “Y si el futuro fuera peor que el
passado?”
Bem, se as pessoas já não tão otimistas em
relação ao futuro, temos responsabilidades para com o futuro das próximas
gerações. E não vai ser resolvido com arrogância e individualismo, mas,
humildade e simplicidade certamente são alguns dos componentes mais importantes
da receita para um futuro melhor que o passado e o presente.
COMENTÁRIOS FINAIS
Aos olhos do Cristianismo, a humildade também é
vista como uma das virtudes principais, pois, nos resguarda do orgulho.
No que tange às opiniões de alguns filósofos,
nem todos são unânimes em louvá-la como sendo uma virtude. Nietzche viu-a como
uma qualidade que os poderosos louvam nos fracos, mais, pelo fato de que ela os
serve à finalidade de mantê-los sob sua sujeição. E aqui, podemos ver como
Nietzche captou bem a marcha da humanidade. Ou seja, desde que o mundo é
mundo...
Voltando ao que o Maçom deve buscar e desejar,
assim como, às atitudes do Maçom perante a sociedade, não será exigido dele que
(com base nos processos escritos acima) busque atingir a iluminação no seu
sentido judaico, mas, que ele extraia daí também o máximo do que esses
ensinamentos podem propiciar, além de que, o homem para estar o mais próximo da
justiça e da probidade, deve se comportar de forma a combinar a humildade e a
simplicidade, pois, ninguém conseguirá exercer a humildade se não se colocar
como diminuto que é ante a grandeza do universo. Enquanto formos prisioneiros
dos nossos egos, dos nossos pequenos mundos, não sairemos da “concha escura que
representa o EU”. Devemos ser humildes, devemos também, falar, escrever e agir
com simplicidade. Devemos, nós Maçons, usar da moderação em nosso estilo de
vida, o que vai condizer melhor com a nossa condição. Quando lemos ou ouvimos
que, “A Maçonaria é, portanto, o progresso contínuo, por ensinamentos, por
uma série de Graus, por promoções sucessivas, visando incutir no íntimo dos
homens a LUZ ESPIRITUAL e DIVINA que, afugentando os baixos sentimentos de materialismo,
de sensualidade e de mundanismo, invocando, sempre, o GRANDE ARQUITETO DO
UNIVERSO, os torne dignos de si mesmos, da Família, da Pátria e da Humanidade.”,
estamos realmente almejando e buscando isso tudo, não é?
NOTAS:
TALMUDE (1) : coletânea de livros sagrados dos judeus, onde ficam registradas as discussões rabínicas que pertencem à lei judia e ética judaica, assim como, dos costumes e da história do judaísmo. (fonte: wikipédia)
CONSULTAS BIBLIOGRÁFICAS:
Revistas:
ESPIRITISMO & CIÊNCIA ESPECIAL” - N° 61
– Mythos Editora
Livros:
ASLAN, Nicola. “Grande Dicionário Enciclopédico
de Maçonaria e Simbologia” – Editora Maçônica “A Trolha” Ltda. 2012
CHAMPLIN, R.N. “Enciclopédia de Bíblia,
Teologia e Filosofia” - Vol. 3 - Editora Hagnos - 2008
COOPER, David A. “A CABALA e a Prática do
Misticismo Judaico” – Editora Campus – 2006
GIRARDI, Ivo. “Do Meio-Dia à Meia-Noite –
Vade-Mécum Maçônico“ – Nov Letra Gráfica e Editora Ltda. 2008
PEQUENO DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO
“KOOGAN-LAROUSSE” - Editora Larousse do Brasil 1980
ROTMAN, Flávio. “AMÉM – O Povo Judeu Fez um
Pacto com Deus” -Editora leitura - 2006
RITUAL E INSTRUÇÕES DO GRAU DE APRENDIZ-MAÇOM
DO RITO ESCOCÊS ANTIGO E ACEITO – 2010-2013 – GORGS
UNTERMAN, Alan. “Dicionário Judaico de Lendas e
Tradições” Jorge Zahar Editor - 1992

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