A FRATERNIDADE EM TEMPOS DE CONVENIÊNCIA

 


"Raramente encontramos pessoas ingratas enquanto formos capazes de fazer o bem."

— François de La Rochefoucauld

A Maçonaria orgulha-se, com razão, de sustentar como pilares fundamentais a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade. Entretanto, entre os ideais proclamados e a realidade vivida em muitas lojas e obediências, existe por vezes uma distância desconfortável que merece reflexão sincera.

Todo maçom que já ocupou um cargo de destaque conhece um fenômeno curioso. Durante o período eleitoral, surgem amigos em abundância. Irmãos que raramente se manifestavam passam a telefonar, enviar mensagens calorosas, demonstrar apreço e oferecer apoio incondicional. O ambiente torna-se repentinamente repleto de afeto, consideração e reconhecimento.

Contudo, basta encerrar o mandato para que muitos desses relacionamentos desapareçam com surpreendente rapidez. Os elogios cessam, os convites diminuem e os contatos tornam-se escassos. Como aves migratórias, essas amizades parecem seguir o calendário dos cargos e das oportunidades.

Essa realidade não é exclusiva da Maçonaria. Ela reflete uma fragilidade humana antiga: a tendência de valorizar pessoas pelo que representam, possuem ou podem oferecer, e não necessariamente por aquilo que são.

Em alguns ambientes maçônicos, a fraternidade parece tornar-se uma virtude sazonal. Floresce durante períodos de influência e visibilidade, mas enfraquece quando desaparecem os títulos, os aventais mais ornamentados ou as posições de destaque.

O problema, entretanto, vai além das relações de conveniência.

A solidariedade, frequentemente apresentada como uma das grandes forças da instituição, nem sempre se manifesta com a mesma intensidade que os discursos proferidos nos templos. O irmão ou a irmã que visita um enfermo no hospital, que oferece ajuda sem publicidade, que estende a mão em momentos de dificuldade financeira ou emocional, sem esperar reconhecimento ou retorno, tornou-se uma figura cada vez mais rara.

São esses os verdadeiros construtores da fraternidade. Não aqueles que fazem grandes discursos sobre união, mas os que silenciosamente praticam a virtude quando ninguém está observando.

Ao redor deles, contudo, surgem personagens conhecidos. Existem os que aparecem sempre que uma luz de destaque é acesa, atraídos pelo prestígio e pelas oportunidades. E existem aqueles que desaparecem justamente quando alguém necessita de auxílio, preferindo ignorar o sofrimento alheio para evitar qualquer inconveniente.

Enquanto isso, fora dos templos, persistem os mitos populares sobre uma suposta rede maçônica capaz de mobilizar recursos ilimitados para socorrer qualquer irmão em necessidade. A realidade costuma ser muito mais simples e, por vezes, decepcionante.

Em muitas lojas, encontram-se abundantes discursos sobre fraternidade, mas menos disposição para enfrentar os desafios concretos que ela exige. É relativamente fácil falar sobre solidariedade em sessões ritualísticas; mais difícil é dedicar tempo para visitar um irmão enfermo, contribuir para auxiliar uma família em dificuldade ou permanecer ao lado de alguém quando sua influência já não produz benefícios.

Talvez a maior ironia esteja justamente aí.

Os que possuem prestígio, influência ou recursos financeiros frequentemente recebem atenção constante. Já aqueles que atravessam períodos de dificuldade descobrem, não raramente, que os limites da fraternidade podem ser mais estreitos do que imaginavam.

Isso não significa que a solidariedade maçônica não exista. Ela existe, e continua sendo uma das mais belas expressões dos ideais da Ordem. Mas sua presença depende menos das estruturas institucionais e muito mais da consciência individual de cada maçom.

A verdadeira fraternidade não se mede pelos aplausos recebidos durante um mandato nem pelo número de cumprimentos protocolares em uma sessão solene. Ela se revela nos momentos em que não há cargos a disputar, favores a trocar ou benefícios a obter.

Talvez o maior desafio da Maçonaria contemporânea não seja preservar seus símbolos, seus rituais ou suas tradições. Talvez seja resgatar, na prática cotidiana, a essência daquilo que ela proclama há séculos: a capacidade de permanecer ao lado de um irmão ou de uma irmã quando já não existe qualquer vantagem em fazê-lo.

Porque é precisamente nesse momento que a fraternidade deixa de ser discurso e se transforma em virtude.


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