MAÇONARIA, RELIGIÃO E O GADU: DESMISTIFICANDO UMA RELAÇÃO COMPLEXA
Por Atahualpa Meirelles
Uma das questões mais debatidas e controversas
em torno da instituição maçônica refere-se à natureza e à função do GADU — que,
embora o texto original o cite em um contexto diretivo, é universalmente
compreendido na Ordem como o Grande Arquiteto do Universo. Abordar esse tema
nos insere no complexo terreno da relação entre a Maçonaria e a religião, um
campo fértil para questionamentos e, inevitavelmente, inúmeros mal-entendidos.
Frequentemente, a sociedade profana se
pergunta: a Maçonaria é uma religião? Trata-se de uma seita ou da expressão de
um sincretismo teológico? Seria um reflexo do deísmo do século XVIII? Existe um
"deus maçônico"? E, por fim, frequentar uma loja equivale a ir a uma
igreja, sinagoga ou mesquita?
A
Posição Oficial: O Documento de 1985
Para dissipar a considerável confusão que
envolve esse debate, o ponto de partida mais seguro é o documento oficial
aprovado pela Grande Loja Unida da Inglaterra (GLUI) em 21 de junho de 1985,
apropriadamente intitulado "Maçonaria e Religião". Este
documento estabelece diretrizes cristalinas sobre a postura da Ordem:
Não é
uma religião: A Maçonaria não é uma religião, tampouco atua como um substituto
para ela.
Crença
no Ser Supremo: A Ordem exige que seus membros acreditem em um Ser Supremo, mas
não oferece, nem impõe, nenhuma doutrina de fé específica.
Abertura
e Tolerância: A instituição está aberta a homens de todas as crenças e
vertentes religiosas.
Proibição
de Debates Religiosos: Para preservar a harmonia, discussões sobre religião são
estritamente proibidas durante os trabalhos em Loja.
Ausência
de um "Deus Maçônico": Não existe um deus exclusivo da Maçonaria, nem
o objetivo de criar um "deus composto" para unir diferentes
religiões. O Deus reverenciado pelo maçom é o exato mesmo Deus da religião que
ele professa em sua vida privada.
Universalidade
da Oração: Os nomes e títulos usados na Maçonaria para indicar o Ser Supremo
servem para permitir que homens de diferentes crenças se unam em oração e
respeito, sem que o conteúdo teológico seja motivo de discórdia.
Respeito
Mútuo: Os ensinamentos morais maçônicos são perfeitamente aceitáveis e
compatíveis com todas as religiões, demonstrando o profundo respeito da Ordem
pela fé individual.
O
Falso Paradoxo do Materialismo Ateu
A partir da afirmação categórica de que "a
Maçonaria não é uma religião", alguns observadores externos concluíram, de
forma equivocada, que a instituição seria fundamentada no materialismo ateu ou
em uma concepção puramente antropológica e existencial.
Contudo, essa é uma falsa dicotomia. Afirmar o
caráter não-religioso da Ordem não significa adotar uma postura de negação da
transcendência. Pelo contrário, a exigência da crença em um Ser Supremo
confirma que a Maçonaria reconhece e valoriza o plano espiritual. O problema
aparente reside apenas em como harmonizar dois princípios que, à primeira
vista, poderiam parecer contraditórios para os desavisados: o fato de a
instituição não ser religiosa e o direito (e dever) do maçom individual de
cultivar a sua própria fé.
O
GADU como Ideal Regulatório
A solução para essa aparente contradição
encontra-se exatamente na concepção do Grande Arquiteto do Universo (GADU).
Ao invés de ser um dogma engessado, o GADU
funciona como um ideal regulatório, um princípio aberto, inclusivo e tolerante.
Ele atua como um "guarda-chuva" conceitual que acomoda e respeita as
características e atributos específicos que cada religião individual confere à
sua divindade.
É essa brilhante formulação que permite manter
a total coerência com as declarações da Grande Loja Unida da Inglaterra. Dessa
forma, a Maçonaria consegue ser um ponto de união genuíno: um espaço onde
homens de diferentes crenças podem se sentar lado a lado, unidos por valores
morais compartilhados e pelo respeito mútuo, enquanto mantêm intacta e soberana
a sua própria fé religiosa.

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