O HOMEM LIVRE E DE BOA MORAL: REFLEXÕES SOBRE UM REQUISITO ESSENCIAL DA MAÇONARIA NO SÉCULO XXI
Por Atahualpa Meirelles
As Constituições de Anderson, publicadas em
1723, estabelecem de forma clara e perene um dos pilares da admissão na
Maçonaria: o candidato deve ser “um homem livre e de boa moral”. Passados mais
de três séculos, como interpretar esse preceito no alvorecer do século XXI, em
uma sociedade marcada por rápidas transformações tecnológicas, culturais e
éticas?
Não se trata, evidentemente, de uma exigência meramente formal. Ter a ficha criminal limpa é condição necessária, mas insuficiente. A expressão “homem de boa moral” é, por natureza, ampla e exige uma leitura profunda, que transcende critérios superficiais ou conveniências ideológicas. Cada Obediência, cada Loja e cada Irmão responsável pela triagem de candidatos possui, naturalmente, certa margem interpretativa. No entanto, o verdadeiro espírito maçônico convida-nos a buscar o que há de universal nessa exigência.
Qualidades que Ultrapassam Fronteiras
Uma pessoa de “boa moral”, no sentido maçônico, é aquela em quem se pode confiar. É o homem sério, responsável e consciencioso. Não se exige perfeição — ninguém o é, e o Maçom certamente não aspira ao título de santo. O que se busca é a presença de princípios sólidos: o bom pai de família, o bom cidadão, cumpridor de seus deveres, prudente em suas ações, discreto em suas palavras, honesto em seus negócios e relações.
Trata-se, em essência, de alguém com quem se pode contar para a grande obra coletiva da Ordem: a construção do Templo da Humanidade. Qualidades como integridade, responsabilidade e confiabilidade não pertencem a esta ou àquela corrente religiosa, política ou filosófica. Elas são patrimônios da dignidade humana e constituem o alicerce sobre o qual se ergue uma Fraternidade autêntica.
A Boa Vontade segundo Kant
Para iluminar essa reflexão, recorremos à filosofia de Immanuel Kant, cuja influência sobre o pensamento moderno, inclusive maçônico, é inegável. Em sua Fundamentação da Metafísica dos Costumes, o filósofo de Königsberg apresenta o conceito de boa vontade como o único bem incondicional:
“A vontade é boa não por causa do que faz e conquista, nem mesmo por causa de sua capacidade de alcançar os fins que estabelece para si mesma, mas apenas por causa da vontade, isto é, em si mesma; considerada em si mesma, deve ser considerada incomparavelmente superior a tudo o que poderia ser feito por meio dela, tendo em vista qualquer inclinação, ou mesmo, se preferir, todas as inclinações juntas. Mesmo que a adversidade da fortuna ou os dons mesquinhos de uma natureza perversa privassem completamente essa vontade do poder de realizar seus próprios planos; mesmo que seus maiores esforços fossem em vão e ela permanecesse uma pura e simples boa vontade [...], ela brilharia com sua própria luz como uma joia, como algo que tem seu valor pleno em si mesmo.”
Kant define a boa vontade como aquela que se determina a cumprir o dever, fazendo tudo o que está ao seu alcance para realizá-lo, independentemente dos resultados externos ou das inclinações pessoais. Essa concepção ressoa profundamente com o ideal maçônico. Não basta aparentar virtude; é fundamental cultivar uma disposição interior constante de agir retamente.
Conclusão: O Compromisso Perene da Maçonaria
No mundo contemporâneo, onde relativismos morais e conveniências imediatas muitas vezes prevalecem, reafirmar o requisito de ser “homem livre e de boa moral” é um ato de resistência e de fidelidade aos princípios fundadores da Ordem. A Maçonaria não busca homens perfeitos, mas homens de boa vontade — livres de vícios que comprometam a harmonia da Loja e comprometidos com a elevação moral da Humanidade.
Que cada Loja, ao avaliar seus candidatos, o
faça com sabedoria, justiça e discernimento. Que possamos, como Irmãos, não
apenas exigir essa qualidade nos que batem à porta do Templo, mas cultivá-la
diariamente em nós mesmos. Assim, honraremos o legado de Anderson e
contribuiremos, com retidão e fraternidade, para o progresso constante da Arte
Real.

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