207 - MAÇONARIA, LIBERDADE DE CONSCIÊNCIA E CULTURA DA PAZ

 


Por Adauto Paranhos

Os acontecimentos que marcaram o cenário internacional nos últimos anos, especialmente após os ataques terroristas de 7 de outubro de 2023 em Israel, evidenciaram como conflitos geopolíticos podem ultrapassar fronteiras e alimentar o crescimento do extremismo, da intolerância religiosa, do antissemitismo, da islamofobia e de diversas formas de radicalização.

Mesmo países distantes dos campos de batalha passaram a sentir os reflexos desse ambiente de polarização. Redes sociais transformaram-se em espaços de propagação do ódio, discursos extremistas ganharam visibilidade e antigas divisões religiosas, étnicas e ideológicas voltaram a ocupar o centro do debate público.

Diante desse cenário, torna-se oportuno refletir sobre a contribuição que a Maçonaria pode oferecer à sociedade brasileira na defesa da paz, da liberdade de consciência e da convivência fraterna.

A Maçonaria diante dos desafios do século XXI

Desde suas origens, a Maçonaria não foi concebida para uniformizar pensamentos, mas para reunir homens livres e de bons costumes, provenientes das mais diversas religiões, profissões, culturas e convicções filosóficas.

A Loja Maçônica constitui um espaço singular onde diferenças deixam de ser motivo de divisão para se transformarem em fonte de aprendizado.

Ali convivem cristãos, judeus, espíritas, budistas, muçulmanos, deístas e irmãos que professam diferentes concepções religiosas, unidos não por uma crença comum, mas pelo compromisso compartilhado com valores universais como liberdade, igualdade, fraternidade, justiça, respeito e dignidade humana.

Essa característica torna a Maçonaria uma das mais antigas escolas práticas de convivência democrática.

O Brasil e o valor da liberdade religiosa

A sociedade brasileira caracteriza-se por sua enorme diversidade cultural e religiosa.

A Constituição Federal assegura a liberdade de crença, garante o livre exercício dos cultos e estabelece que o Estado não adota religião oficial, devendo tratar igualmente todos os cidadãos.

Esse princípio, frequentemente denominado laicidade do Estado, não representa oposição à religião. Ao contrário, protege todas elas, impedindo privilégios, discriminações e perseguições.

É justamente essa neutralidade estatal que permite a convivência harmoniosa entre diferentes tradições religiosas e filosóficas.

Para a Maçonaria brasileira, esse princípio encontra profunda sintonia com seus próprios fundamentos.

Nas Lojas, não importa a religião professada pelo iniciado, mas sua disposição para buscar a verdade, praticar a tolerância e aperfeiçoar seu caráter.

 A liberdade de consciência como fundamento iniciático

A liberdade de consciência talvez seja um dos maiores patrimônios da tradição maçônica.

Em Loja, cada irmão possui o direito de expressar suas ideias dentro da ordem ritualística, com respeito às opiniões divergentes e sem imposição de verdades absolutas.

O objetivo do debate maçônico não é produzir vencedores e vencidos, mas favorecer o crescimento intelectual e moral de todos.

Essa prática desenvolve uma habilidade cada vez mais rara em tempos de polarização: a capacidade de ouvir.

Enquanto a sociedade frequentemente transforma diferenças em conflitos, a Maçonaria procura convertê-las em oportunidades de construção coletiva.

O perigo dos radicalismos

Toda forma de extremismo nasce quando alguém acredita possuir exclusivamente a verdade e considera ilegítimo o direito do outro de pensar diferente.

Foi assim em diversos momentos da história humana.

Os regimes totalitários, o terrorismo, o fanatismo religioso, os preconceitos raciais e o antissemitismo possuem uma característica comum: negam a dignidade do ser humano em nome de uma causa considerada superior.

A Maçonaria, ao contrário, ensina que nenhuma convicção política, filosófica ou religiosa pode justificar a violência, o ódio ou a perseguição.

Quando desaparece o respeito pela pessoa humana, desaparece também a possibilidade da fraternidade.

Construindo pontes em vez de muros

O trabalho realizado dentro das Lojas não termina ao encerramento das sessões.

O verdadeiro objetivo da iniciação consiste em formar homens melhores para construir uma sociedade melhor.

O Templo representa um espaço de aprendizado que deve irradiar seus ensinamentos para o mundo profano.

Assim, cada maçom é chamado a atuar como construtor de pontes entre pessoas, instituições e comunidades, contribuindo para diminuir preconceitos, combater discriminações e fortalecer o diálogo.

Mais do que discursos, a sociedade necessita de exemplos concretos de respeito, serenidade e equilíbrio.

A atualidade da mensagem maçônica

Num tempo marcado pela velocidade da informação, pela intolerância nas redes sociais e pelo crescimento dos discursos de ódio, a Maçonaria continua oferecendo uma mensagem profundamente atual.

Ela recorda que a liberdade somente existe quando acompanhada da responsabilidade.

Que a diversidade não constitui uma ameaça, mas uma riqueza.

Que a fraternidade não significa pensar da mesma forma, e sim reconhecer no outro a mesma dignidade que reivindicamos para nós.

Um compromisso com a paz

As grandes Potências Maçônicas brasileiras tradicionalmente evitam manifestações político-partidárias, preservando sua independência institucional. No entanto, jamais podem permanecer indiferentes quando valores fundamentais da civilização são ameaçados.

Defender a liberdade de consciência, combater toda forma de preconceito, repudiar o antissemitismo, a intolerância religiosa, o racismo e qualquer manifestação de violência não constitui uma posição política, mas um dever moral coerente com os princípios da Ordem.

A Maçonaria brasileira possui uma longa história de participação na construção das instituições nacionais, da defesa das liberdades públicas e da valorização da cidadania. Essa herança impõe uma responsabilidade permanente diante dos desafios contemporâneos.

Em um mundo cada vez mais dividido, o simbolismo da Pedra Bruta continua atual. Cada maçom é chamado a trabalhar, antes de tudo, sobre si mesmo, lapidando seus preconceitos, dominando suas paixões e cultivando a virtude.

Somente homens melhores poderão construir uma sociedade mais justa.

Somente o diálogo poderá substituir o extremismo.

E somente a fraternidade será capaz de transformar diferenças em convivência pacífica.

Esse continua sendo um dos mais elevados propósitos da Maçonaria: formar construtores da paz, defensores da liberdade e promotores da dignidade humana, para que o Templo edificado no coração de cada iniciado se reflita, dia após dia, na construção de um Brasil mais tolerante, mais justo e verdadeiramente fraterno.



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