207 - O APRENDIZ E OS PEDREIROS DO TEMPO
*Por Gregório José*
Conta-se que certa vez ingressou
em uma Loja um jovem Aprendiz. Era inteligente, estudado e possuía uma
eloquência admirável. No mundo profano, sua profissão lhe conferia respeito e
prestígio. Acostumado a defender causas e a sustentar argumentos diante de
homens importantes, acreditava compreender bem a natureza humana.
Nas primeiras sessões, porém,
algo lhe chamava a atenção.
Observava os Irmãos mais
antigos. Alguns contavam cinco anos de Ordem; outros, dez, vinte, trinta ou até
mais. Via-os levantar-se lentamente de seus assentos. Caminhavam pelo Templo
com passos calmos, quase como se deslizassem sobre o piso mosaico. Cumpriam
seus deveres sem pressa, atentos a cada detalhe.
Muitos já eram aposentados.
Alguns chegavam acompanhados por Irmãos mais jovens, que lhes ofereciam carona.
Outros necessitavam de auxílio para subir os degraus do Templo.
O Aprendiz observava tudo aquilo
e não compreendia.
— Por que ainda vêm à Loja? —
comentava em voz baixa com outros mais novos. — Já passaram tantos anos aqui.
Não aprenderam o suficiente?
E prosseguia:
— Além disso, falam tão baixo...
Às vezes mal consigo ouvi-los. E essa lentidão faz com que tudo demore mais.
Alguns Irmãos experientes ouviam
aquelas palavras. Contudo, em vez de repreendê-lo, apenas sorriam.
O tempo passou.
Certa noite, poucos minutos
antes da abertura dos trabalhos, o Venerável Mestre anunciou:
— Irmão Aprendiz, hoje o titular
de uma das funções não poderá comparecer. Assim, você ocupará temporariamente o
cargo de Chanceler.
O jovem sorriu imediatamente.
Sentiu-se honrado. Era como se tivesse recebido um prêmio.
Mas o sorriso durou pouco.
Embora frequentasse a Loja havia
meses, não sabia exatamente quais eram as atribuições daquele cargo.
Olhou ao redor.
Faltavam apenas alguns minutos
para o início da sessão.
O coração acelerou.
As mãos começaram a tremer.
O suor escorreu pela testa.
A garganta secou.
Pela primeira vez, aquele
advogado acostumado aos tribunais sentiu-se completamente inseguro.
O Venerável Mestre percebeu.
Conhecendo a impetuosidade do
jovem, chamou discretamente um Irmão veterano.
Era um mecânico de profissão.
Homem simples.
Pouco falava.
Mas possuía muitos anos de Loja.
— Sente-se ao lado dele — pediu
o Venerável. — Oriente-o no que for necessário.
E assim foi feito.
Quando chegou o momento de usar
a palavra, o Aprendiz levantou-se.
A voz falhou.
Veio uma tosse inesperada.
As mãos tremiam.
As palavras pareciam fugir de
sua memória.
O pânico tomou conta de seu
espírito.
Então, ao seu lado, o velho
mecânico começou a lhe sussurrar orientações.
Uma frase de cada vez.
Uma instrução aqui.
Outra ali.
E assim o jovem conseguiu
concluir sua participação.
Ao final da sessão, ainda
abalado, aproximou-se do Irmão mais velho.
— Meu Irmão — disse —, hoje
passei pela maior vergonha da minha vida.
O veterano sorriu.
Pousou a mão em seu ombro e
respondeu:
— Não, meu Irmão. Hoje você
recebeu uma das maiores lições da sua vida.
O Aprendiz permaneceu em
silêncio.
Então o velho continuou:
— Aqui estamos para aprender,
não para julgar. A observação diária é o cinzel que nos transforma em mestres
de nós mesmos.
Apontou para o Oriente.
— Está vendo nosso Past
Venerável? Sentado à esquerda do Venerável Mestre? É enfermeiro. E o Venerável
Mestre, que conduz os trabalhos, é bancário. Ainda assim, antes de tomar muitas
decisões, consulta os mais experientes para ouvir seus conselhos.
Depois indicou outras Luzes da
Loja.
— O Primeiro Vigilante é juiz
aposentado. Passou por todos os cargos antes de chegar onde está. O Segundo
Vigilante é médico cirurgião. Nem sempre pode estar presente, mas quando vem
fortalece sua Coluna com sua experiência.
Apontou para outro Irmão.
— O Orador, acredite se quiser,
trabalha como atendente em uma loja do centro da cidade.
E prosseguiu:
— O Secretário sustentou sua
família durante toda a vida vendendo apólices de seguro. O Mestre de Harmonia é
advogado, como você. O Mestre de Cerimônias quase seguiu a vida religiosa antes
de encontrar a companheira com quem caminha há mais de quarenta anos. E o
Guarda do Templo, que abre e fecha nossas portas, foi gerente bancário durante
muitos anos.
O Aprendiz escutava atentamente.
O veterano então concluiu:
— Percebe, meu Irmão? Aqui se
encontram as mais diversas profissões, histórias e experiências. Não é o cargo
que ocupamos na Loja que nos engrandece. Tampouco a posição que ocupamos no
mundo profano.
Fez uma breve pausa.
— Grande é aquele que aprende a
diminuir o próprio orgulho para compreender o valor do outro.
O silêncio tomou conta do
ambiente.
— Somos pedreiros — continuou o
velho. — Pedreiros de nós mesmos. Estamos aqui para reconstruir nossas
imperfeições. Aprendemos a ouvir, a respeitar, a compreender. Quando
conseguimos nos colocar no lugar do outro, passamos a entender suas dores, seus
esforços e também seus sorrisos.
O Aprendiz olhou novamente para
aqueles homens que antes julgava lentos.
Pela primeira vez percebeu algo
que nunca havia notado.
Não caminhavam devagar por falta
de vigor.
Caminhavam devagar porque
aprenderam que nem toda jornada precisa ser apressada.
Não falavam baixo por fraqueza.
Falavam baixo porque descobriram
que a sabedoria raramente precisa elevar a voz.
Naquela noite, o jovem entrou na
Loja acreditando que ensinaria ao mundo algo de seu conhecimento.
Saiu dela compreendendo que
ainda tinha muito a aprender.
E, ao observar os velhos
pedreiros do tempo, entendeu que a verdadeira grandeza não está em parecer
importante, mas em permanecer aprendiz por toda a vida.
Que o Grande Arquiteto do
Universo nos ilumine e nos oriente sempre.
Moral da Estória: A experiência não se mede pelos cargos ocupados, nem pelos títulos conquistados, mas pela humildade de continuar aprendendo. Aquele que observa com respeito aprende mais do que aquele que julga com pressa. Na construção do próprio caráter, todos são mestres de alguma virtude e aprendizes de muitas outras.
*Jornalista, radialista,
Filósofo, MM*
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