207 - O PENSAMENTO DE SANTO AGOSTINHO E A LIÇÃO PARA A MAÇONARIA
Da Redação
Poucos pensadores
exerceram tanta influência sobre a filosofia e a teologia cristãs quanto Santo
Agostinho, bispo de Hipona (354–430 d.C.). Autor de mais de uma centena de
obras, ele permanece atual graças a clássicos como Confissões e A
Cidade de Deus, textos que continuam sendo estudados nas universidades e
debatidos por estudiosos de diversas áreas.
Além de sua
importância para o pensamento cristão, Agostinho oferece reflexões que dialogam
profundamente com a filosofia maçônica, especialmente quando trata da relação
entre os símbolos exteriores e a transformação interior do ser humano.
Um mestre da
interioridade
Em Confissões,
Agostinho narra sua juventude marcada por excessos, sua passagem pelo
maniqueísmo e sua longa busca pela verdade até sua conversão ao Cristianismo.
Essa jornada revela um homem que compreendeu que o verdadeiro conhecimento não
nasce apenas da observação do mundo exterior, mas principalmente do
aperfeiçoamento da alma.
Essa mesma busca
pela verdade encontra paralelo na Maçonaria. O iniciado percorre um caminho
simbólico que o conduz, gradualmente, ao autoconhecimento, ao domínio das
paixões e ao aperfeiçoamento moral.
Não por acaso,
Agostinho faz diversas referências à luz como símbolo da sabedoria divina. Em
suas obras, ele fala da "Luz eterna" e da "luz de excelência e
beleza", imagens que encontram forte ressonância na tradição maçônica,
onde a Luz representa o conhecimento, a verdade e o despertar espiritual.
A sabedoria
de Salomão
Outro ponto de
aproximação entre Agostinho e a tradição maçônica aparece em A Cidade de
Deus, quando o bispo de Hipona exalta a figura do rei Salomão, considerado
pela tradição maçônica o primeiro Grão-Mestre.
Ao comentar o livro
de Eclesiastes, atribuído a Salomão, Agostinho recorda que:
"A sabedoria é
superior à insensatez, assim como a luz é superior às trevas."
Essa afirmação
sintetiza um dos princípios fundamentais da Arte Real: a constante busca da
sabedoria como instrumento de aperfeiçoamento humano.
O perigo das
aparências
Talvez a maior
contribuição de Agostinho para a reflexão maçônica esteja em sua advertência
contra o risco de confundir os sinais exteriores com a realidade que eles
representam.
Em Confissões,
ele reconhece que o homem pode facilmente tornar-se prisioneiro das aparências:
"Enredo meus
passos nessas belezas exteriores; mas Tu me libertas, ó Senhor."
Agostinho não
condena a beleza do mundo nem os símbolos. O problema surge quando o homem se
detém apenas naquilo que vê, esquecendo-se de procurar o significado mais
profundo das coisas.
Essa reflexão possui
extraordinária afinidade com a filosofia maçônica.
A Ordem está repleta
de símbolos: colunas, luzes, ferramentas de trabalho, aventais, palavras, graus
e a própria imagem do Templo de Salomão. Entretanto, nenhum desses elementos
possui valor por si só. Todos existem para conduzir o iniciado a uma realidade
superior.
Como escreveu Albert
Pike em Morals and Dogma:
"Toda Loja é um
Templo e, em sua totalidade e em cada um de seus detalhes, é simbólica."
Em outras palavras,
a Loja não é apenas um local decorado com símbolos. Ela própria é um grande
símbolo destinado a educar o olhar, a inteligência e a consciência do maçom.
O trabalho
interior
Logo na abertura de Confissões,
Agostinho apresenta uma das frases mais conhecidas da literatura cristã:
"Tu nos criaste
para Ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Ti."
Essa inquietação
revela que nenhuma realização puramente exterior é suficiente para preencher o
ser humano. O verdadeiro descanso somente é encontrado quando ocorre uma
transformação interior.
Essa ideia dialoga
diretamente com a iniciação maçônica.
Os rituais não
constituem um fim em si mesmos. Cada cerimônia representa um convite ao
aperfeiçoamento moral. Cada símbolo aponta para uma disciplina interior. Cada
ferramenta ensina uma virtude.
A Maçonaria jamais
pretende que seus símbolos sejam admirados apenas pela beleza ou pela tradição.
Eles existem para provocar reflexão, mudança de comportamento e crescimento
espiritual.
Muito além do
ritual
Agostinho também
adverte:
"Os homens saem
para admirar a altura das montanhas, as ondas do mar, os cursos dos rios, a
extensão do oceano e o movimento das estrelas, mas passam por si mesmos sem se
admirarem."
O ensinamento
permanece extremamente atual.
É possível
contemplar grandes obras, participar de cerimônias solenes e conhecer
profundamente os rituais sem jamais realizar o verdadeiro trabalho interior.
O mesmo risco existe
na Maçonaria.
Um irmão pode
dominar o simbolismo, decorar instruções ritualísticas e frequentar
assiduamente a Loja, mas permanecer inalterado em seu caráter. Quando isso
acontece, o símbolo perde sua finalidade educativa e transforma-se apenas em
formalidade.
Albert Pike reforça
essa ideia ao afirmar que a filosofia somente possui valor quando produz uma
efetiva melhoria da humanidade. Da mesma forma, a Maçonaria somente cumpre sua
missão quando transforma homens comuns em homens melhores.
O símbolo
como ponto de partida
Em outra de suas
obras, De fide et symbolo, Agostinho ensina que os símbolos da fé foram
transmitidos para que os homens, vivendo corretamente, purifiquem seus corações
e compreendam verdadeiramente aquilo em que acreditam.
Essa perspectiva
harmoniza-se perfeitamente com o método iniciático maçônico.
O símbolo nunca
representa o destino final da caminhada. Ele constitui apenas o início da
jornada. Seu propósito é conduzir o iniciado da observação à reflexão, da
reflexão ao conhecimento, do conhecimento à disciplina e da disciplina à
prática das virtudes.
Quando isso
acontece, o templo deixa de ser apenas um edifício físico e passa a ser
construído no interior do próprio homem.
Conclusão
A leitura das obras
de Santo Agostinho revela que sua mensagem ultrapassa os limites da tradição
cristã e oferece valiosas lições para todos aqueles que trilham um caminho
iniciático.
Sua advertência
contra o apego às aparências recorda ao maçom que nenhum avental, nenhum
título, nenhum grau e nenhum símbolo possuem valor se não forem acompanhados de
uma sincera transformação interior.
Assim como ensinou
Albert Pike, os símbolos da Ordem existem para formar homens melhores e
contribuir para uma humanidade melhor. E, como nos lembra Santo Agostinho, o
verdadeiro templo começa a ser edificado quando a obra deixa de ser apenas
exterior e passa a acontecer no coração de cada iniciado.
O sinal exterior
pode abrir a porta do conhecimento. Mas é somente a obra interior que conduz o
homem à verdadeira sabedoria.
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