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Da Redação

A figura de Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805) permanece entre as mais fascinantes da literatura portuguesa. Durante muito tempo, sua imagem pública foi reduzida à de um poeta satírico, irreverente e boêmio, autor de versos licenciosos e anedotas populares. Entretanto, pesquisas históricas mais recentes revelam uma dimensão muito mais profunda de sua personalidade: a de um intelectual comprometido com os ideais do Iluminismo e ligado à Maçonaria portuguesa em um dos períodos mais turbulentos da história de Portugal.

Essa faceta ganha novo destaque na obra Bocage – arauto do Iluminismo – o "Irmão Lucrécio" da Loja Fortaleza e a aurora das Luzes em Portugal, publicada em 2026 pelo jornalista e historiador Jorge Morais. O estudo procura reconstruir, com base nas poucas evidências documentais disponíveis, o percurso maçônico do poeta e sua contribuição para a difusão das ideias iluministas.

A difícil reconstrução da trajetória maçônica

Investigar a participação de Bocage na Maçonaria não é tarefa simples. As perseguições promovidas pelo Santo Ofício e pelas autoridades portuguesas obrigavam as lojas maçônicas a manter absoluto sigilo sobre seus membros. Documentos eram destruídos ou jamais produzidos, justamente para proteger os iniciados.

Essa escassez de registros explica por que a presença de Bocage na Ordem sempre apareceu de forma discreta em suas biografias. Jorge Morais procura preencher essa lacuna utilizando fontes inquisitoriais, testemunhos contemporâneos e, sobretudo, a própria obra poética do escritor.

Segundo o pesquisador, o poeta utilizava na Loja Fortaleza o nome simbólico de "Lucrécio", homenagem ao filósofo romano Tito Lucrécio Caro, autor do poema De Rerum Natura, obra frequentemente associada ao pensamento racionalista e à valorização da razão.

Bocage como porta-voz do Iluminismo

Mais do que simplesmente integrar uma loja maçônica, Bocage teria desempenhado um papel fundamental na difusão dos ideais iluministas em Portugal.

No final do século XVIII, conceitos como liberdade de pensamento, igualdade entre os homens, fraternidade, valorização da ciência e do conhecimento experimental começavam a desafiar o antigo modelo absolutista e religioso que dominava a Europa.

Influenciado por pensadores como Voltaire, Rousseau e outros filósofos franceses, Bocage incorporou esses princípios em sua produção literária.

Para Jorge Morais, sua poesia representa uma verdadeira defesa da liberdade intelectual, combatendo o obscurantismo, o fanatismo e a intolerância que caracterizavam o ambiente político e religioso português da época.

A poesia como prova da iniciação

Não existem documentos conhecidos que registrem a iniciação de Bocage na Maçonaria, tampouco sua progressão pelos graus simbólicos ou eventual exercício de cargos em loja.

Diante dessa ausência documental, Jorge Morais apresenta uma hipótese sustentada pela análise literária.

Segundo ele, a própria poesia de Bocage constitui a maior evidência de sua formação maçônica.

Ao longo de diversos poemas aparecem referências constantes aos valores cultivados pela Ordem, como:

fraternidade;

virtude;

liberdade;

aperfeiçoamento moral;

combate ao fanatismo;

busca da verdade;

valorização da razão.

Além disso, diversas composições fazem referências elogiosas a irmãos maçons, indicando forte convivência com o ambiente iniciático.

A influência de Voltaire

Entre as principais influências intelectuais de Bocage estava François-Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire.

Na Lisboa do final do século XVIII, o Dicionário Filosófico circulava clandestinamente entre intelectuais e membros das sociedades discretas, apesar da rígida censura oficial.

Jorge Morais observa que muitas ideias desenvolvidas por Voltaire aparecem praticamente traduzidas em versos por Bocage.

Enquanto o filósofo francês escrevia em prosa contra o obscurantismo religioso e em defesa da razão, o poeta português transformava esses conceitos em poesia, tornando-os mais acessíveis ao público culto da época.

A Loja Fortaleza

As poucas informações disponíveis indicam que Bocage pertenceu à Loja Fortaleza, uma das oficinas maçônicas existentes em Lisboa.

Os registros levantados pelo historiador A. H. de Oliveira Marques mostram que, em documentos inquisitoriais de 1802, Bocage aparece identificado como integrante da loja, sendo descrito como "solteiro", "escritor" e com 37 anos de idade.

Embora essa documentação não permita estabelecer a data exata de sua iniciação, ela confirma sua presença entre os obreiros da oficina.

Prisão e perseguição

A trajetória de Bocage foi marcada por constantes conflitos com o poder.

Suas ideias liberais desagradavam profundamente os setores conservadores portugueses.

Em especial, tornou-se alvo do padre José Agostinho de Macedo, antigo amigo que acabou transformando-se em um de seus maiores adversários.

Em agosto de 1797, por determinação do intendente-geral da Polícia, Diogo Inácio de Pina Manique, Bocage foi preso após a publicação de um poema considerado favorável à expansão revolucionária francesa.

Permaneceu encarcerado inicialmente na prisão do Limoeiro.

Posteriormente foi entregue ao Tribunal do Santo Ofício, que determinou sua permanência em instituições religiosas para um processo de "doutrinação", tentativa de fazê-lo abandonar suas ideias consideradas perigosas.

Somente no final de 1798 recebeu ordem de libertação.

Jorge Morais considera bastante provável que sua iniciação maçônica tenha ocorrido entre 1795 e 1797, pouco antes da prisão.

Outra hipótese sobre sua iniciação

Nem todos os estudiosos concordam com essa cronologia.

O historiador Daniel Pires acredita que Bocage possa ter ingressado na Maçonaria logo após retornar a Lisboa, em 1790, ou no ano seguinte.

Segundo essa interpretação, o poeta já mantinha estreita amizade com diversos maçons influentes e talvez até tenha colaborado na tradução de catecismos utilizados nas cerimônias iniciáticas.

Embora essa hipótese permaneça sem comprovação documental definitiva, reforça a percepção de que Bocage estava profundamente integrado aos círculos intelectuais iluministas portugueses.

A denúncia ao Santo Ofício

A principal confirmação indireta da filiação maçônica de Bocage surgiu em novembro de 1802.

Na ocasião, o frade franciscano António da Mãe de Deus rompeu o sigilo sacramental ao comentar publicamente uma confissão feita por uma jovem paroquiana.

Ela teria relatado ter ouvido três homens discutindo assuntos relacionados à Maçonaria, entre eles Bocage.

A denúncia chegou ao Tribunal do Santo Ofício e também à Intendência da Polícia.

Curiosamente, apesar da gravidade da acusação, o poeta jamais foi convocado para responder formalmente perante o tribunal inquisitorial.

O resgate de uma imagem histórica

Durante mais de dois séculos, a memória de Bocage permaneceu associada quase exclusivamente ao poeta satírico e irreverente.

O trabalho desenvolvido por Jorge Morais propõe uma importante revisão dessa imagem.

Sem negar seu espírito crítico, seu humor mordaz ou sua personalidade intensa, o autor demonstra que Bocage foi também um intelectual profundamente comprometido com os ideais do Iluminismo e com os princípios defendidos pela Maçonaria.

Mais do que um simples escritor de versos populares, surge o retrato de um homem que utilizou a literatura como instrumento de combate ao obscurantismo, à intolerância e ao autoritarismo.

Sua trajetória evidencia como, mesmo sob forte perseguição política e religiosa, as ideias de liberdade, igualdade, fraternidade e razão encontraram na poesia um poderoso veículo de resistência, transformando Bocage em uma das vozes mais representativas da aurora das Luzes em Portugal.