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Da Redação

A história da Maçonaria costuma ser contada sob uma perspectiva europeia ou americana. Poucos sabem, porém, que durante o século XIX e o início do século XX as Lojas Maçônicas desempenharam um papel decisivo na formação intelectual e política de diversos países do Oriente Médio. Muito antes de a palavra "democracia" fazer parte do vocabulário político da região, as Lojas reuniam homens de diferentes religiões, etnias e classes sociais para debater liberdade, igualdade, cidadania e reformas políticas.

Esse período, hoje praticamente esquecido, é resgatado em um estudo publicado pelo jornal suíço Neue Zürcher Zeitung (NZZ), que mostra como a Maçonaria foi um importante centro de difusão das ideias iluministas no mundo árabe antes de ser praticamente extinta por governos autoritários.

Um espaço único de convivência

No final do século XIX, cidades como Cairo, Alexandria, Beirute, Damasco, Istambul e outras importantes capitais do Império Otomano possuíam intensa atividade maçônica.

As Lojas reuniam muçulmanos, cristãos, judeus, armênios, gregos e europeus residentes na região. Em uma época marcada por profundas divisões religiosas, aquele ambiente oferecia algo raro: igualdade entre os participantes, liberdade de consciência e respeito às diferenças.

Ali eram discutidos temas considerados revolucionários para a época:

educação pública;

liberdade de imprensa;

limitação do poder absoluto;

reformas administrativas;

direitos individuais;

desenvolvimento científico.

Em muitos aspectos, as Lojas funcionavam como verdadeiras escolas de cidadania.

A influência do Iluminismo

Grande parte dessas ideias chegava ao Oriente por intermédio das Potências europeias, especialmente França, Itália e Inglaterra.

Intelectuais árabes passaram a frequentar as Lojas e encontraram nelas um ambiente favorável para discutir conceitos como:

soberania popular;

separação entre religião e Estado;

liberdade de pensamento;

constitucionalismo;

participação política.

Não se tratava de partidos políticos, mas de locais onde era possível debater livremente assuntos que dificilmente poderiam ser discutidos em público.

Essa influência contribuiu para movimentos reformistas que marcaram o final do Império Otomano e o nascimento de diversos Estados modernos da região.

Nacionalismo e independência

Diversos líderes políticos e intelectuais ligados aos movimentos nacionalistas árabes passaram pelas Lojas Maçônicas.

A fraternidade oferecia uma rede internacional de contatos e um ambiente relativamente protegido para a circulação de novas ideias.

Embora nem todos os reformadores fossem maçons, muitos tiveram contato com os ideais defendidos nas Lojas, especialmente aqueles ligados à liberdade, ao progresso e à educação.

O avanço dos regimes autoritários

A situação começou a mudar radicalmente após a Segunda Guerra Mundial.

Com a ascensão de governos nacionalistas e militares em diversos países árabes, organizações independentes passaram a ser vistas com crescente desconfiança.

Governos autoritários não aceitavam instituições que funcionassem fora do controle estatal.

A Maçonaria tornou-se alvo de acusações variadas:

ligação com potências estrangeiras;

atuação política clandestina;

influência ocidental;

supostas conspirações internacionais.

Em muitos casos, essas acusações jamais foram comprovadas, mas serviram como justificativa para a dissolução das Lojas.

O conflito árabe-israelense agravou a situação

Após a criação do Estado de Israel, em 1948, e principalmente depois da Guerra dos Seis Dias, em 1967, a situação tornou-se ainda mais delicada.

A Maçonaria passou, em vários países, a ser injustamente associada ao sionismo ou a organizações internacionais vistas como hostis aos governos locais.

Essa associação, embora historicamente simplificadora e frequentemente sem base factual, fortaleceu campanhas de perseguição e levou à proibição das atividades maçônicas em boa parte do mundo árabe

Hoje restam poucas exceções

Atualmente, a Maçonaria encontra-se proibida ou fortemente restringida na maioria dos países árabes.

Algumas exceções existem em determinados locais, mas a presença institucional é muito menor do que foi no passado.

Grande parte da população sequer sabe que, durante décadas, as Lojas tiveram papel importante na modernização intelectual da região.

Uma lição histórica

A trajetória da Maçonaria no Oriente Médio revela um aspecto frequentemente ignorado da história.

Durante um período decisivo, as Lojas serviram como espaços de convivência entre diferentes culturas, incentivando o diálogo, a tolerância e a circulação de ideias que contribuíram para o surgimento de movimentos reformistas e constitucionais.

Posteriormente, o crescimento dos regimes autoritários e as tensões geopolíticas transformaram essas mesmas instituições em alvo de perseguições, levando ao fechamento de inúmeras Lojas.

Independentemente das diferentes interpretações sobre sua influência política, permanece um fato histórico relevante: em diversos países do Oriente Médio, a Maçonaria foi um dos poucos ambientes onde homens de diferentes religiões e origens podiam reunir-se em igualdade de condições para discutir educação, liberdade, cidadania e progresso social.

Essa experiência demonstra como instituições dedicadas ao livre debate tendem a florescer em períodos de abertura política e, frequentemente, tornam-se as primeiras vítimas quando prevalecem o autoritarismo e a intolerância

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