Da Redação
Poucas narrativas da Antiguidade exerceram
tanta influência sobre as tradições judaica, cristã, islâmica e maçônica quanto
o encontro entre o rei Salomão e a Rainha de Sabá. Embora a Bíblia dedique
apenas alguns versículos ao episódio, diferentes povos ampliaram essa história
ao longo dos séculos, transformando-a em uma das mais fascinantes lendas do
mundo antigo. Segundo antigas tradições preservadas em escritos apócrifos,
desse encontro teria nascido Menelik I, fundador da dinastia real etíope e
responsável por levar a Arca da Aliança para a Etiópia, deixando uma réplica no
Santo dos Santos do Templo de Salomão.
A principal fonte dessa tradição é o Kebra
Nagast ("Livro da Glória dos Reis"), obra fundamental da cultura
etíope. Embora sua redação definitiva seja medieval, o texto reúne tradições
muito mais antigas sobre Salomão e a Rainha de Sabá, chamada de Makeda. Na
narrativa, Salomão já era conhecido em todo o Oriente por sua extraordinária
sabedoria. Seu reino era descrito como um lugar de paz, prosperidade e justiça,
onde não havia ladrões nem violência. Comerciantes de diversas regiões viajavam
até Jerusalém para negociar materiais destinados à construção do Templo e
também para conhecer pessoalmente o célebre monarca.
Entre esses comerciantes estava Tamrin, um rico
mercador etíope que permaneceu vários meses em Jerusalém observando a
administração do reino. Impressionado, retornou à Etiópia relatando à rainha
tudo o que havia visto. Contou-lhe sobre a justiça de Salomão, sua habilidade
em resolver disputas, seu profundo conhecimento das artes, da arquitetura, da
administração e da organização do trabalho. Segundo o relato, o rei
supervisionava pessoalmente centenas de operários envolvidos na construção do
Templo, dominando todas as técnicas empregadas na grande obra.
Encantada pelos relatos, Makeda declarou que
nenhuma riqueza era superior à sabedoria. Movida por esse desejo de
conhecimento, organizou uma grandiosa caravana e atravessou o deserto rumo a
Jerusalém. Ao encontrar Salomão, ficou impressionada não apenas com sua
inteligência, mas também com sua humildade. O rei ensinava que toda sabedoria
vinha de Deus e que nenhum homem deveria considerar-se superior aos demais.
Para ilustrar essa ideia, comparava-se a um simples trabalhador que carregava
pedras para o Templo, afirmando que todos possuíam funções diferentes, porém
igualmente importantes diante do Criador.
Durante meses, Salomão respondeu às perguntas
da rainha sobre filosofia, governo, justiça e espiritualidade. Makeda revelou
possuir grande inteligência e sincero desejo de compreender os mistérios
divinos. Ao final desse período, declarou abandonar o culto ao Sol para adorar
o Deus de Israel, reconhecendo-O como o verdadeiro Criador. Esse aspecto da
narrativa possui forte simbolismo: representa a passagem das trevas para a luz,
da ignorância para o conhecimento, um tema recorrente também na tradição maçônica.
Quando chegou o momento da despedida, ocorre um
dos episódios mais conhecidos do Kebra Nagast. Salomão desejava que a rainha
permanecesse mais tempo. Ela, porém, fez o rei prometer que não a tomaria à
força. Em resposta, Salomão pediu que ela também prometesse não retirar nada de
seu palácio sem autorização. Na última noite, ordenou que fossem servidos
alimentos extremamente condimentados e bebidas capazes de provocar intensa
sede. Durante a madrugada, incapaz de resistir, Makeda levantou-se para beber
água.
Nesse instante, Salomão apareceu lembrando-lhe
do juramento: a água também fazia parte de seus bens. A rainha reconheceu que
havia quebrado sua promessa ao tomar algo pertencente ao rei sem autorização.
Segundo a tradição, ambos consideraram o pacto encerrado e dessa união nasceu
posteriormente um filho. Embora essa passagem tenha caráter claramente
lendário, ela ocupa posição central na tradição etíope. Na mesma noite, Salomão
teve um sonho em que viu um sol brilhante iluminando Israel e, em seguida, afastando-se
para brilhar intensamente sobre a Etiópia.
Salomão interpretou a visão como um sinal de
que, no futuro, a presença divina alcançaria aquele distante reino africano.
Para muitos estudiosos, esse sonho simboliza a futura transferência da missão
espiritual de Israel para outra nação segundo a tradição etíope. Alguns anos
depois nasceu Menelik I. Ao atingir a idade adulta, sua mãe enviou-o a
Jerusalém levando um anel de sinete que Salomão lhe entregara antes da
despedida. O anel serviria como prova de sua identidade diante do rei.
Ao chegar à corte, Menelik foi imediatamente
reconhecido por Salomão, tanto pelo anel quanto por sua impressionante
semelhança física com o monarca. Segundo o Kebra Nagast, o jovem recebeu honras
especiais e foi consagrado governante da Etiópia. A tradição afirma que todos
os imperadores etíopes descendiam diretamente dessa linhagem davídica. O último
deles foi Haile Selassie I, deposto em 1974. É nesse ponto que surge uma das
tradições mais conhecidas relacionadas à Arca da Aliança.
Segundo o Kebra Nagast, Menelik retornou à
Etiópia levando consigo a verdadeira Arca da Aliança. No Santo dos Santos do
Templo teria permanecido apenas uma réplica, enquanto o objeto original seria
guardado até hoje na cidade de Axum, sob proteção da Igreja Ortodoxa Etíope. Embora
não exista comprovação arqueológica dessa tradição, ela permanece profundamente
enraizada na identidade religiosa e histórica da Etiópia e continua despertando
o interesse de estudiosos e pesquisadores.
O Alcorão apresenta uma versão bastante
diferente da história. Nela, Salomão conversa com os animais e recebe de uma
poupa notícias sobre um poderoso reino governado por uma rainha que adorava o
Sol. O rei envia-lhe uma carta convidando-a a reconhecer o Deus único. Antes de
sua chegada, ordena que seres espirituais tragam milagrosamente o trono da
rainha até Jerusalém. Ao encontrar seu próprio trono já instalado diante de
Salomão e contemplar as maravilhas do palácio, ela abandona a idolatria e passa
a adorar o Deus de Israel.
Independentemente de seu valor histórico, o
encontro entre Salomão e a Rainha de Sabá tornou-se um poderoso símbolo da
busca pelo conhecimento. Na tradição maçônica, Salomão representa o arquétipo
do governante sábio, do construtor do Templo e do mestre que une ciência,
justiça e espiritualidade. A jornada da Rainha de Sabá simboliza o caminho
daquele que percorre longas distâncias em busca da Verdade, disposto a
abandonar antigas crenças para alcançar uma compreensão mais elevada. Seja na
Bíblia, no Kebra Nagast ou no Alcorão, permanece a mesma lição: a verdadeira
riqueza está na sabedoria, na humildade e na busca sincera pela Luz.
0 Comentários