Drácula: O “Maçom” Imortal da Literatura?

Por Irmão Darin A. Lahners

A figura de Drácula atravessou séculos como um dos ícones mais assustadores do imaginário ocidental. A criatura concebida por Bram Stoker — um escritor irlandês que, ao que tudo indica, conhecia bem a Maçonaria — tornou-se muito mais do que um vilão gótico. Ela se transformou em símbolo cultural, metáfora moral e, curiosamente, personagem associado a temas e personagens reais ligados à Arte Real.

Este artigo explora as possíveis conexões maçônicas por trás do romance Drácula (1897), o contexto de sua criação e como a narrativa ecoa símbolos e tensões presentes no pensamento maçônico do final do século XIX.

 Bram Stoker: o Maçom por trás do Vampiro

Abraham “Bram” Stoker nasceu em Dublin, em 1847, e se destacou como aluno brilhante de Matemática no Trinity College. Mas seu nome ecoaria pela eternidade graças a uma obra literária: Drácula, publicada em 1897, inicialmente recebida com frieza pela crítica e hoje reconhecida como um dos pilares da literatura gótica.

Segundo os registros da Grande Loja Unida da Inglaterra, Stoker foi membro da Buckingham and Chandos Lodge nº 1150, composta por oficiais da Artilharia Voluntária de Middlesex. Ele também teria tido contato com grupos como a Golden Dawn e a Societas Rosicruciana in Anglia, indicando familiaridade com simbolismos esotéricos e filosóficos que permeavam a Inglaterra vitoriana.

Não por acaso, sua obra transborda tensões entre razão e mistério — um diálogo constante dentro da própria tradição maçônica.

 O Modelo por Trás do Conde: Sir Henry Irving, o Maçom Ilustre

Stoker trabalhou por quase trinta anos como gerente e braço-direito do renomado ator Sir Henry Irving, considerado o maior ator de sua geração e o primeiro artista de teatro britânico a receber o título de cavaleiro, em 1895.

Curiosamente, Irving também era maçom, iniciado na Jerusalem Lodge nº 197, em Londres.

O escritor afirmava que o comportamento aristocrático, elegante e ao mesmo tempo enigmático de Irving serviu de inspiração direta para Drácula. Assim, o vampiro literário talvez carregue, simbolicamente, traços de um Irmão famoso — elevado às sombras da ficção.

 A Trama de Drácula: Uma Batalha entre Luz e Trevas

O romance acompanha Jonathan Harker, um jovem advogado inglês enviado à Transilvânia para assessorar o Conde Drácula na compra de uma propriedade na Inglaterra. A narrativa então se torna uma espiral de terror:

 Harker descobre ser prisioneiro no castelo.

 Lucy Westenra, amiga de sua noiva Mina, é atacada misteriosamente, perdendo sangue sem explicação.

 O médico Van Helsing percebe que forças sobrenaturais estão em ação.

 Lucy morre — apenas para retornar como vampira — e precisa ser destruída para encontrar descanso.

 Mina se torna a nova vítima do Conde, e os protagonistas juram destruí-lo para salvar sua alma.

 A perseguição culmina na Transilvânia, onde Drácula é finalmente morto.

Além do terror e do simbolismo gótico, o romance explora temas caros à Maçonaria:

Luz x Trevas / Bem x Mal

A eterna busca da verdade contra a ignorância e a corrupção moral.

Razão científica x Sobrenatural

Um debate latente na Inglaterra da Revolução Industrial — e também em muitas discussões filosóficas dentro da Ordem.

Modernidade x Tradição

Os limites do progresso e seus impactos éticos.

Salvação x Danação

A eterna tensão moral entre virtude e vício.

 E os Ecos Maçônicos no Texto?

Embora não haja afirmações explícitas de que Drácula seja uma alegoria maçônica, é possível identificar ecos simbólicos.

A famosa frase dita pelo Conde, ao receber Harker, contém uma nuance ritualística:

 “Entre livremente, e por sua vontade.”

Já em outra obra de Stoker, The Lair of the White Worm, aparece uma expressão ainda mais claramente relacionada ao vocabulário maçônico:

 “Estamos, creio eu, devidamente ‘tilhados’. Assim, nenhum mal poderá ocorrer no desvendamento dos limites de nossa confiança.”

Referências como estas mostram que Stoker tinha familiaridade com o ambiente e a linguagem da Maçonaria — e que tal universo possivelmente influenciou sua escrita.

 O Vampiro Interpretado por Maçons

Entre tantos atores que interpretaram o famoso Conde nas telas, um deles se destaca: Lon Chaney Jr., listado como maçom por diversas Grandes Lojas norte-americanas.

Chaney Jr. — célebre também por viver O Lobisomem (1941), O Monstro de Frankenstein e a Múmia — descendia de família de artistas e teve carreira marcada tanto por grandes papéis quanto por fama de comportamento intenso e às vezes conflituoso. Ainda assim, era lembrado pelos colegas como generoso e protetor, sobretudo com atores iniciantes ou veteranos desrespeitados pelos estúdios.

Em um curioso círculo simbólico, o vampiro de Stoker — criado por um maçom e inspirado em outro — também foi interpretado por um Irmão da Ordem.

Conclusão: Drácula, o “Maçom” Imortal da Ficção

Se Drácula não é literalmente um Irmão, é inegável que:

 Foi criado por um escritor maçom;

 Inspirado em um ator maçom;

 E interpretado por outro maçom renomado.

Além disso, sua narrativa traz símbolos, dilemas e arquétipos que dialogam profundamente com temas presentes na tradição maçônica: luz contra trevas, progresso contra superstição, autodescoberta e a luta pela liberdade interior.

Talvez por isso Drácula seja, metaforicamente, um dos “membros imortais” da cultura maçônica — não porque subscreveu o Livro de Constituição, mas porque habita o imaginário simbólico do Ocidente.

Quem diria?

O mais famoso vampiro da história talvez seja, em espírito, o mais célebre “maçom não vivo” da literatura.


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