Irmão Laelso Rodrigues Passa ao Oriente Eterno


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Por Aldo Fogaça

Laelso Rodrigues morreu em 22 de dezembro, em Sorocaba, aos 93 anos. Homem de presença marcante, dono de um sorriso cativante e de uma voz suave. Correto no trato com as pessoas e nos negócios, era humilde e sempre presente. Ele gostava da vida. Era um pacificador.

Visionário, teve participação importante no desenvolvimento de Sorocaba e na instituição de entidades que visam à promoção humana.

Sua longevidade e autonomia eram admiradas por todos que o cercavam. Ainda dirigia o próprio automóvel e, apesar da idade, não precisava usar óculos em nenhuma circunstância. Lúcido, tinha boa memória e vivia fazendo planos para o futuro. Não se limitava no tempo e era um entusiasta da tecnologia. Dominava a inteligência artificial (IA) e usava o recurso no celular no dia a dia. Na condição de membro da diretoria da Fundação Ubaldino do Amaral (FUA) — mantenedora do Jornal Cruzeiro do Sul e do Colégio Politécnico — e presidente do Conselho Superior da Fundação Cultural Cruzeiro do Sul — mantenedora da rádio Cruzeiro FM 92,3 —, dava expediente diário, em contato direto com os colaboradores das duas entidades. Foi assim até sexta-feira, dia 19, quando chegou no início da tarde, conversou com todos e participou da confraternização com os colaboradores. Esse era um daqueles momentos nos quais ele mostrava o quanto gostava de pessoas.

Era muito agradável conviver com ele. Homem culto, que contava muitas histórias, fruto de sua experiência de vida. Chamava a todos de “meu amigo” ou “minha amiga”. Construiu uma brilhante carreira como empresário, filantropo, líder comunitário e voluntário.

Faleceu sereno em sua residência, enquanto dormia. Não estava doente; havia apenas a fragilidade normal de um homem nonagenário.

Laelso Rodrigues nasceu em 30 de março de 1932, em Sorocaba, filho de Augusto Rodrigues e Hilda da Silva Rodrigues. Era viúvo de Leda Terezinha Borghesi Rodrigues, pai de Márcia Cristina e Marcos Augusto, e um avô carinhoso, dedicado e orgulhoso de três netos e uma bisneta.

Começou a trabalhar aos treze anos de idade como office-boy no armazém do senhor Jorge Gomes e, aos 19 anos, já formado em contabilidade, passou a atuar na Indústria de Linho Quatro Pontos como diretor financeiro. Trabalhou também, durante vários anos, no ramo de automóveis. Em 1969, ingressou na Indústria Têxtil Metidieri, onde assumiu o cargo de diretor financeiro, permanecendo até 1975. Foi ainda um importante executivo da Moto-Peças S.A. — Transmissões e Engrenagens, que se destacou como a maior indústria brasileira de componentes de câmbios e diferenciais da década de 1970, com sede em Sorocaba.

 Industrialização de Sorocaba

Foi a partir daí, entre 1971 e 1972, que Laelso Rodrigues iniciou sua dedicação à industrialização de Sorocaba. Trabalhou com os prefeitos José Crespo Gonzalez (gestão 1969–1973) e Armando Pannunzio (gestão 1973–1977), com foco na atração de indústrias para o município. Na gestão de Armando Pannunzio, Laelso Rodrigues presidiu o Conselho Municipal de Desenvolvimento Industrial, com o objetivo de promover a modernização da cidade. O resultado foi o aumento do número de indústrias que escolheram Sorocaba para se instalar, dando origem à Zona Industrial.

 Vida pública

A atuação de Laelso Rodrigues no processo de industrialização de Sorocaba projetou seu nome na vida pública, e a eleição municipal de 1976 — quando cada partido apresentava candidatos em legenda e sublegenda — foi uma demonstração disso. Laelso foi o escolhido pela Arena para disputar a eleição municipal, realizada em turno único no dia 15 de novembro daquele ano, com o objetivo de eleger o prefeito que administraria Sorocaba por um mandato de quatro anos, de 1º de fevereiro de 1977 a 31 de janeiro de 1983.

Laelso teve como principal adversário nas urnas José Theodoro Mendes, pelo MDB. Foi uma campanha intensa. Contudo, após a apuração, Laelso, que recebeu 19.522 votos (21,68%), foi superado por Theodoro, que obteve 46.117 votos (51,21%). Após a conclusão do pleito, Theodoro e Laelso tornaram-se amigos, demonstrando, mais uma vez, a cordialidade do homem sensato, que reconheceu a escolha do eleitor sorocabano em 1976. Theodoro foi um bom prefeito e faleceu em 24 de janeiro de 2020.

 Vida maçônica

Laelso Rodrigues iniciou-se na Maçonaria em 27 de abril de 1957, pela Loja Maçônica Perseverança III, onde exerceu diversas funções, inclusive a presidência. Foi três vezes presidente da Fundação Ubaldino do Amaral (março de 1966 a novembro de 1967; novembro de 1977 a novembro de 1980; e março de 2010 a março de 2014); presidiu o Conselho Superior da Fundação Ubaldino do Amaral e a primeira diretoria da Fundação Cultural Cruzeiro do Sul, mantenedora da rádio Cruzeiro FM 92,3; foi presidente, por três vezes, do Lar Escola Monteiro Lobato; integrante do Conselho da Associação Protetora dos Insanos e da Vila dos Velhinhos de Sorocaba; e diretor da Santa Casa de Misericórdia de Sorocaba. Também teve importante atuação na Fraternidade Acadêmica Perseverança III, na Liga Sorocabana de Combate ao Câncer e no Serviço de Obras Sociais, entre inúmeras outras entidades voltadas à valorização humana. Em 28 de junho de 2021, Laelso Rodrigues recebeu o título de Embaixador da Paz, concedido pela Federação para a Paz Universal.

Antes disso, entre os anos de 2001 e 2008, foi Soberano Grão-Mestre Geral do Grande Oriente do Brasil. Nesse período, defendeu a proteção da Amazônia e liderou uma firme campanha intitulada “Maçonaria contra as drogas”.

 Causas filantrópicas

Em 1963, o então presidente da Loja Maçônica Perseverança III (PIII), Paulo Pence Pereira, tinha um objetivo definido para marcar sua gestão, iniciada em 1960. Sonhava em criar uma empresa capaz de gerar renda para manter as entidades beneficentes assistidas pela PIII, reduzindo a dependência exclusiva de festas, almoços e jantares para a obtenção de recursos.

Para viabilizar a ideia, Paulo Pence Pereira sabia que apenas uma pessoa seria capaz de executar a nobre missão: Laelso Rodrigues. Ele recebeu a incumbência com determinação. Laelso sabia que Hélio da Silva Freitas, também membro da PIII, pretendia vender a Editora Cruzeiro do Sul S/A, pertencente à família Freitas, assim como a rádio PRD7. A família Freitas pedia 50 milhões de cruzeiros pela rádio (moeda de 1963) e 21 milhões de cruzeiros pela Editora Cruzeiro do Sul S/A.

Após conversas com Hélio da Silva Freitas, em nome de sua família, Laelso Rodrigues elaborou um minucioso relatório, endereçado a Paulo Pence Pereira e aos demais membros da PIII, favorável à aquisição da Editora Cruzeiro do Sul S/A.

E assim foi feito. Vinte e um maçons, pertencentes à PIII, adquiriram da família Freitas as ações da Editora Cruzeiro do Sul S/A, passando à condição de novos proprietários da empresa. Eram eles: Adail Odin de Arruda, Adonias Nóbrega de Almeida, Antônio Antunes Almeida, Antônio Novais, Benedito Freitas Dias, Domingos Puglia Neto, Francisco Sócrates de Oliveira Camargo, Hélio da Silva Freitas, Irineu Camargo Almeida, José Aleixo Irmão, Juarez Antonio Dal Pian, Juvenal Wey, Laelso Rodrigues, Levy Godoy, Luiz Garcia Duarte, Martin Affonso, Milton Rodrigues, Nelson Guilherme Guimarães Glória, Olival Wey Pires do Amaral, Paulo Breda Filho e Paulo Pence Pereira.

Em 31 de julho de 1964, os 21 maçons detentores das ações da Editora Cruzeiro do Sul formalizaram a doação à recém-fundada Fundação Ubaldino do Amaral. Até ontem, Laelso Rodrigues era o único instituidor vivo da entidade, que nasceu de um sonho de Paulo Pence Pereira e permanece firme em sua missão, 61 anos depois.

 Homem de família

Laelso Rodrigues foi um homem exemplar. Fez história, tanto no plano pessoal quanto institucional. Foi sempre alguém com visão à frente de seu tempo, capaz de enxergar um futuro promissor para Sorocaba e para as entidades das quais participou e que representou, além de apostar em propostas e pessoas. Ao longo dos anos, plantou muito — muitas vezes até mesmo sozinho —, mas a colheita foi sempre coletiva.

O homem que morreu em atividade, aos 93 anos, dedicou boa parte de sua vida às causas filantrópicas e ao próximo, mas era na família que encontrava seu porto seguro e também novas e boas ideias.

Ao lado da esposa, Leda Terezinha Rodrigues, falecida em 2012, Laelso idealizou e apoiou campanhas sociais como o Natal Solidário, que mobilizava empresários e voluntários para a arrecadação de recursos e a distribuição de cestas básicas a famílias em situação de vulnerabilidade. À frente da FUA, fortaleceu ainda a Fundação Educacional Politécnica de Sorocaba, que ofereceu ensino gratuito a jovens de baixa renda, e a Fundação Cultural Cruzeiro do Sul, responsável pela modernização da Rádio Cruzeiro FM.

A família Rodrigues também era empreendedora. Dona Leda tinha grande talento para produzir delícias culinárias, o que lhes garantiu notoriedade nesse segmento em Sorocaba. Foram proprietários de empresas que atendiam desde refeições simples até grandes banquetes. Os Rodrigues sabiam fazer boas festas.

Dona Leda faleceu em 12 de dezembro de 2012, um dos dias mais tristes da vida de Laelso Rodrigues. Apesar de ser um homem “forte”, Laelso demonstrou toda a sua humanidade naquele momento. Esse sentimento voltou a se repetir em 26 de maio de 2025, quando perdeu seu melhor amigo, o irmão de sangue e de fé, Laor Rodrigues. Os irmãos eram inseparáveis, e o amor que nutriam um pelo outro era contagiante. Laelso foi ao encontro de seus dois grandes amores, deixando tantos outros entristecidos. Além dos filhos Márcia e Marcos, netos e bisneta, deixa a irmã Laurita Rodrigues de Almeida.

Fonte: https://www.jornalcruzeiro.com.br

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