A Bíblia não existe

Por Pierre Gandonniere

Costuma-se falar da Bíblia, da Torá, do Alcorão, do Antigo e do Novo Testamento como se fossem livros únicos, estáveis e perfeitamente definidos. Estritamente falando, nenhum deles existe dessa forma. Ainda assim, esses textos deram origem às três grandes religiões monoteístas, conhecidas como as “religiões do Livro”. O paradoxo é evidente.

No início, não havia um livro, mas a Arca da Aliança. Segundo a tradição, construída por ordem divina transmitida a Moisés no Monte Sinai, ela permitia ao povo hebreu levar consigo seu Deus único. No seu interior estariam as tábuas da Lei — o Decálogo —, o primeiro texto escrito que anunciaria, de modo embrionário, um livro sagrado. Com a destruição do Primeiro Templo de Jerusalém, em 586 a.C., a Arca desapareceu, levando consigo qualquer vestígio material desse texto original.

O que hoje chamamos de Antigo Testamento não é um livro, mas uma coleção de até 46 textos, reunidos ao longo de séculos. São fragmentos de origens diversas, transmitidos inicialmente de forma oral, apoiados em registros escritos usados apenas como auxílio de memória. Copiados e recopiados por escribas durante gerações, esses textos só muito tarde foram organizados em versões consideradas canônicas. Foram redigidos em hebraico, aramaico e, posteriormente, grego, e sofreram alterações inevitáveis ao longo do tempo.

Os manuscritos mais antigos conhecidos — os Manuscritos do Mar Morto, descobertos em 1947 — são cópias datadas entre os séculos III e I a.C. Não existe uma única versão do Antigo Testamento: a tradição judaica e a cristã não incluem exatamente os mesmos livros. A chamada “Bíblia”, cujo nome significa simplesmente O Livro, é uma tentativa de unificar textos que conteriam a “palavra de Deus”. Mas que palavra? Pronunciada quando, por quem, e preservada de que forma? Não há respostas definitivas. Não existe uma Bíblia única e original.

O Novo Testamento apresenta problemas semelhantes. Os Evangelhos não foram escritos por testemunhas diretas, com exceção discutida do Evangelho de João. Mateus, Marcos e Lucas — os Evangelhos Sinópticos — dependem claramente uns dos outros e de fontes hoje desaparecidas, como o chamado documento Q. As epístolas atribuídas a Paulo, Pedro, Tiago, João e Judas têm autoria incerta e refletem sobretudo o esforço dos primeiros pregadores em organizar comunidades cristãs no Império Romano.

Até o final do século I, o cristianismo ainda era uma corrente interna do judaísmo. Esses textos só podem ser compreendidos à luz da tradição judaica, embora tenham sido posteriormente reinterpretados segundo a teologia cristã. Mais uma vez, o texto em si é secundário: é a interpretação que constrói a religião.

Essas narrativas circularam oralmente durante décadas. A escrita servia para fixar, não para difundir, num mundo em que quase ninguém sabia ler. Os primeiros textos autorizados do Novo Testamento surgiram entre os séculos II e III, em grego — língua franca do Império, mas não a língua falada por Jesus. A primeira forma canônica foi estabelecida no Concílio de Laodiceia, em 363, quando textos divergentes foram rejeitados como heréticos. O Novo Testamento é, portanto, uma reunião arbitrária de escritos diversos, contraditórios e de origem incerta.

O Islã, embora mais tardio, não escapa à mesma lógica. O Alcorão, atribuído à revelação transmitida a Maomé entre 610 e 632, foi inicialmente oral. Seu próprio nome significa “recitação”. A versão canônica foi fixada no século VII, durante o califado de Uthman, que eliminou variantes concorrentes. O texto foi organizado não por ordem cronológica, mas por extensão das suratas, o que gera contradições internas resolvidas pela tradição por meio da ab-rogação. Existem, ainda hoje, diferentes versões e inúmeras interpretações, além dos hadiths, que complementam o texto sem terem sido escritos pelo Profeta.

Assim como a Bíblia, o Alcorão “original” jamais existiu como um texto único e definitivo.

Esses três conjuntos religiosos nasceram da oralidade e foram fixados por escrito em épocas em que a reprodução fiel de textos era praticamente impossível. A palavra era interpretada pelo orador; o texto, pelo copista.

É aqui que a Maçonaria encontra seu paralelo. Grande parte de sua simbologia deriva da tradição judaico-cristã, especialmente do Antigo Testamento, amplamente reinterpretado. Além disso, ela trabalha com o mito da Palavra Perdida: um conhecimento primordial que teria desaparecido e cuja busca simbólica dá sentido ao caminho iniciático. Diferentemente das religiões, a Maçonaria sabe tratar-se de uma lenda, não de um fato histórico.

Por fim, a Maçonaria, assim como as tradições religiosas antigas, privilegia a oralidade, o rito e o silêncio. O que importa não é uma palavra original — que nunca existiu —, mas o legado simbólico que ela deixa.

Não existe uma Bíblia maçônica.

 

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