A Egrégora Maçônica: Fato, Ficção ou Responsabilidade Compartilhada?
Da Redação
Existem palavras que circulam nas lojas
maçônicas como se fossem verdades autoevidentes, repetidas com naturalidade,
mas nem sempre plenamente compreendidas. “Egrégora” é uma delas. O termo
costuma ser invocado para explicar uma reunião que “se estabelece”, um forte
laço de unidade entre os irmãos ou, ao contrário, uma atmosfera pesada,
dispersa e pouco fecunda. Para alguns, trata-se de uma realidade quase
palpável; para outros, de uma expressão conveniente; e há ainda quem a
considere uma deriva excessivamente esotérica. Afinal, a egrégora maçônica é
fato ou ficção? A resposta depende, sobretudo, de como escolhemos
compreendê-la.
Em sua forma mais extrema, a egrégora é
apresentada como uma entidade autônoma, uma espécie de forma invisível criada
pelo grupo e capaz de existir independentemente dele. Levado ao pé da letra,
esse entendimento se apoia mais na crença do que na observação. Torna-se
problemático quando passa a explicar tudo: “a loja quer”, “a egrégora está
zangada”, “você feriu a egrégora”. Nesse ponto, o conceito pode deslizar
rapidamente para a superstição, para o medo ou, pior ainda, para uma forma
velada de silenciar consciências em nome da proteção de algo tido como
indiscutível.
Por outro lado, rejeitar completamente a noção
de egrégora é ignorar uma experiência muito real, conhecida por todos que já
participaram de uma reunião verdadeiramente autêntica. Sem recorrer à ideia de
uma entidade, é possível compreendê-la como um fenômeno coletivo concreto: uma
sincronização de atenções, uma qualidade de presença compartilhada, uma
atmosfera interior que emerge quando todos estão em sintonia. O ritual, o
silêncio, os movimentos, o ritmo da palavra, a disposição do Templo, os
símbolos e a postura de cada participante atuam como uma estrutura que une e
canaliza. Não se trata de magia, mas de disciplina. Quando essa disciplina é
vivida com sinceridade, algo muda: os egos se aquietam, a escuta se amplia, a
palavra se torna mais contida e precisa, e o conjunto passa a ter mais peso do
que a simples soma das individualidades.
Nessa perspectiva, o ritual não “produz”
automaticamente a egrégora, como uma máquina gera um efeito previsível. Ele
cria condições. Um ritual recitado de forma mecânica pode gerar desconexão,
mesmo que executado corretamente. Em contrapartida, um ritual simples, porém
profundamente sentido, pode gerar uma intensidade rara. A egrégora, portanto,
não é um resultado garantido, mas a consequência de uma intenção compartilhada
e verdadeiramente incorporada.
É por isso que também se diz que a egrégora
pode se deteriorar. Não é necessário imaginar uma força ferida ou ofendida.
Basta observar a realidade: atrasos constantes, apartes desnecessários,
distrações, cinismo, rivalidades veladas ou discursos feitos mais para
impressionar do que para construir algo comum. Tudo isso compromete a atmosfera
quase de imediato. O silêncio perde densidade, o ambiente se torna tenso ou
disperso e a mensagem simbólica deixa de ressoar. O que se fragiliza não é uma
entidade externa, mas a harmonia interna do grupo e, com ela, a qualidade do
trabalho maçônico.
Costuma-se dizer também que a egrégora “se
alimenta de si mesma”. Usada como metáfora, essa expressão pode ser útil. O que
realmente nutre a qualidade de uma reunião são elementos simples, porém
exigentes: regularidade, atenção, sinceridade, respeito à estrutura
ritualística, benevolência ativa, capacidade de ouvir sem preparar respostas e
o esforço de falar com integridade. É a fraternidade quando deixa de ser apenas
uma palavra e se torna uma atitude concreta. O perigo surge quando essa ideia é
usada para impor silêncio ou culpa: “não critique, você prejudica a egrégora”,
“não questione, você está alimentando a negatividade”. Uma loja saudável não
transforma a egrégora em argumento de autoridade, mas em lembrete da
responsabilidade individual.
Há ainda a tentação de elevar a egrégora à
condição de “grande segredo” da Maçonaria. A ideia é sedutora, mas redutiva.
Mesmo bem compreendida, a egrégora é um efeito do trabalho, não o seu objetivo.
Quando se confunde emoção coletiva com iniciação, corre-se o risco de buscar
sensações em vez de transformação. Corre-se também o risco de preferir uma
“atmosfera agradável” à verdade, ao discernimento e ao esforço interior. O
caminho iniciático não se mede apenas pela intensidade de um encontro, mas
pelos frutos que ele produz na vida: mais consciência, mais integridade, mais
coragem e uma fraternidade verdadeiramente ativa.
Em última análise, a melhor forma de distinguir
entre fato e ficção é adotar uma definição equilibrada. A egrégora pode ser
entendida como a atmosfera interna de uma loja: invisível, porém perceptível;
frágil, porém cultivável; coletiva, mas dependente de cada indivíduo. Ela não
absolve ninguém, não substitui a ética, o trabalho perseverante nem o
pensamento claro. Apenas nos recorda de uma verdade fundamental: em loja,
criamos juntos o melhor… e também o pior.
Assim, a questão essencial não é “a egrégora
existe?”, mas sim: o que cada um de nós traz para a atmosfera do Templo?
Contribuímos para a unidade ou para a sua fragilização? A egrégora não é um
presente que cai do céu. Ela é conquistada, dia após dia, por meio da conduta,
do respeito, da retidão e da fraternidade vivida.

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