A Princesa de Lamballe: entre a fidelidade à Coroa e o protagonismo maçônico
Da Redação
Marie-Thérèse Louise de Carignan-Savoie,
Princesa de Lamballe (1749–1792), figura entre as mulheres mais emblemáticas do
Antigo Regime francês. Duplamente célebre, sua memória atravessa a história
tanto pelo trágico fim durante os massacres revolucionários de setembro de 1792
quanto por sua atuação destacada na Maçonaria feminina do século XVIII.
De origem aristocrática italiana, pertencente a
um ramo júnior da casa real do Piemonte-Sardenha, tornou-se francesa ao
casar-se, aos 17 anos, com Louis-Alexandre de Bourbon-Lamballe, união infeliz
que terminou precocemente com a morte do marido. Viúva, sem filhos e protegida
pelo Duque de Penthièvre, seu sogro, foi introduzida na corte de Luís XV, onde
consolidou uma profunda amizade com Maria Antonieta. Com a ascensão de Luís XVI
ao trono, a princesa foi nomeada Superintendente do Palácio de Versalhes, posição
que, apesar das críticas e invejas, simbolizava a confiança pessoal da rainha.
A lealdade inabalável à soberana custar-lhe-ia
a vida. Em meio às convulsões revolucionárias, a Princesa de Lamballe chegou a
emigrar para a Alemanha, mas retornou à França a pedido de Maria Antonieta.
Presa após a queda das Tulherias, foi encarcerada na prisão de La Force e, em 3
de setembro de 1792, submetida ao Tribunal Popular. Considerada próxima demais
da rainha e suspeita de conspiração, foi entregue à multidão revolucionária e
brutalmente assassinada, tornando-se um dos símbolos mais sombrios da violência
revolucionária.
Paralelamente à vida cortesã, a Princesa de
Lamballe destacou-se como uma das principais figuras da Maçonaria feminina
francesa. Iniciada em 1777 na loja de adoção La
Candeur, rapidamente ascendeu devido à sua posição social,
influência e dedicação. Em 1781, tornou-se Grã-Mestra de todas as lojas
maçônicas femininas regulares do Rito Escocês na França, reconhecidas pelo
Grande Oriente da França, cargo que manteve até sua prisão.
Sob sua liderança, as lojas de adoção
tornaram-se espaços privilegiados de sociabilidade aristocrática, promovendo
bailes, concertos, debates e atividades culturais. Mais do que simples
encontros sociais, esses +ambientes permitiram às mulheres da nobreza,
excluídas da política e da vida militar, participarem da circulação de ideias e
do debate intelectual. Embora a Maçonaria da época não defendesse a igualdade
entre classes, as lojas femininas passaram a refletir sobre educação, saúde e
assistência aos mais pobres, deslocando progressivamente a caridade do
monopólio exclusivo da Igreja.
Essas lojas também demonstraram interesse pelo
esoterismo e pelo misticismo, como o Rito Egípcio de Cagliostro e a Ordem da
Harmonia de Mesmer, revelando uma Maçonaria feminina curiosa, aberta a novas
experiências espirituais e simbólicas. Documentos preservados da loja La Candeur revelam rituais
voltados a cultivar a liberdade do espírito e do pensamento, antecipando, ainda
que de forma embrionária, ideias que mais tarde seriam associadas ao feminismo
moderno.
Mesmo após sua morte, o nome da Princesa de
Lamballe permanece ligado à tradição maçônica. Em 2006, foi fundada na cidade
de Lamballe a Loja “La Princesse de Lamballe”, hoje integrada à Maçonaria
regular francesa, perpetuando simbolicamente a memória de uma mulher que uniu
fidelidade, coragem e protagonismo em uma época de profundas transformações.
Assim, a Princesa de Lamballe permanece como um
testemunho histórico da complexa interseção entre poder, lealdade,
sociabilidade aristocrática e Maçonaria feminina, marcada tanto pela tragédia
quanto por uma atuação pioneira no espaço simbólico e intelectual do seu tempo.

Sou contra.
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