Boaz ou Booz? Jaquim ou Jakin? Uma revisão sobre a etimologia dos nomes das colunas B e J (Parte II – Final)


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Ir.’. José Ronaldo Viega Alves(*)

Na primeira parte conhecemos algo a respeito das origens e do significado da palavra BOAZ, nome atribuído à primeira das colunas do Templo do rei Salomão. Na sequência, conheceremos a palavra JACHIN, nome que corresponde à segunda coluna do pórtico do Templo do rei Salomão(3).

VARIAÇÕES DE ESCRITA

A propósito o Ir.’. Pedro Juk, em seu blog, respondendo a uma pergunta que lhe foi endereçada sobre a grafia que mais correta, respondeu assim:

“... a despeito de existirem várias corruptelas que nos são apresentadas (Jakim, Jakin, Jaquim, Jackin, etc.), a palavra grafada como Jachin, encontrada também nas línguas anglo-saxãs, nos parece ser a mais indicada.” (Juk, 2022)

COMENTÁRIOS:

Acabamos de ver um trecho em que o Ir.’. Pedro Juk nomeia algumas das variações que a palavra apresenta, o que o leitor deve ter em mente, pois, dependendo do autor, é possível que em algumas das transcrições que traremos durante o desenvolvimento do trabalho a grafia de um autor para outro sofra variações.

Na esteira do que acaba de ser dito, é importante complementar que as variações de escrita ocorrem devido às transposições do hebraico para o latino.   

JACHIN OU...?

Champlin registra em sua enciclopédia que JAQUIM no hebraico, significa “ele (Deus) estabelecerá.”

Além do mais, a palavra nomeia vários personagens daqueles que aparecem nas páginas do Antigo Testamento, e entre eles cumpre destacar o terceiro filho de Simeão. Simeão, filho de Jacó, deu o nome de Jakin ao seu terceiro filho, que mais tarde passou para a história como pai dos jakinitas, ou seja, os que formaram a vigésima primeira família das vinte e quatro famílias sacerdotais dos judeus. Conforme Nicola Aslan, o termo jakinitas significa “homens justos”.                      

JACHIN E BOAZ: AINDA SOBRE AS VARIAÇÕES E A LÍNGUA HEBRAICA

Lembro que a minha atenção foi despertada para o assunto que ora é apresentado aqui, a partir do momento em que fiz a leitura a respeito do verbete JACHIN, que é descrita no “Vade-Mécum Maçônico”, a riquíssima compilação do Irmão João Ivo Girardi:

“JACHIN: 1. Nome hebraico derivado de Jah, abreviatura de Jeová e de achin, ‘estabelecer.’ (...)2. O nome desta Coluna na tradição maçônica, foi assim chamada, a partir de Jakin, Grão-Sacerdote assistente, que oficiou quando da consagração do Templo. A Coluna J.’. é citada na Bíblia, mas não o personagem que acabamos de citar. 3. Essa palavra, se escrita com K significa sabedoria, constância, ‘razão aperfeiçoada de saber’, ‘perseverança no bem.’ Se escrita com CH, ela se refere à Coluna da direita que estava colocada no átrio do Templo de Salomão, conforme se vê em (1Rs. 7:21).”

E numa outra ocasião, quando da leitura do verbete no “Grande Dicionário Enciclopédico...” de Nicola Aslan quando ele cita Mackey, pois, este último por sua vez já havia registrado o seguinte: “Jachin (Iod, Caph, Iod, Nun), chamada ichin por Dudley e vários outros escritores, que rejeitam os pontos (na escrita hebraica). É o nome do pilar colocado à mão direita, fazendo frente ao Oriente (isto é, no Sul), onde fica na entrada do Templo do Rei Salomão. Deriva de duas palavras hebraicas, Iod, He – Jah, ‘Deus’, e iachin (Iod, Caph, Iod Nun), ‘estabelecerá ‘. Significa, portanto, ‘Deus estabelecerá’, sendo chamado, frequentemente, o ‘pilar do estabelecimento’.” 

COMENTÁRIOS:

Evidentemente, Jah é considerada uma forma abreviada do nome de Deus ou Jeová como é transcrito em português, sendo que, provém do hebraico Yahweh ou Yavé, e isso nós podemos comprovar com a leitura do Salmo 68.4 (Salmos 68.4):

"Cantai a Deus, cantai louvores ao seu nome; louvai aquele que vai sobre os céus, pois o seu nome é JAH; e exultai diante dele." 

Porém, como pudemos observar de autor para autor, as versões sofrem variações, quando não alguns acréscimos um tanto duvidosos.

Ainda com relação aos excertos anteriores, temos então, JAQUIM, com os significados: “Ele (Deus) firma” e “Deus estabelecerá”, e que são sinônimos.

Intrigou-me sim, o fato do que foi disposto ali no item 3 do “Vade Mécum Maçônico”, pois, não encontrei nada que pudesse corroborar a ideia ali exposta, ou seja, de que há duas grafias diferentes e com dois sentidos. Na verdade, isso acontece em virtude daquilo que o Irmão Guilherme Oak, relatou em trabalho de sua autoria intitulado “Maçonaria e Judaísmo”, citando o exemplo de BOAZ e BOOZ, de onde extraio a seguinte passagem:

“Quando se pergunta a um professor de hebraico o que significa BOAZ, ele discorrerá sobre o significado e a tradução desta palavra. Se perguntarmos, ao mesmo professor, o que significa BOOZ, muito empregada pelos maçons franceses e repetida pelos brasileiros e que é uma corrupção de BOAZ, ele não saberá, obviamente, o significado da palavra, pois ela não tem nada a ver com o hebraico. Quanta discussão inútil se evitaria se se pudesse resolver a questão filologicamente.”

UM POUCO MAIS SOBRE AS INTERPRETAÇÕES MAÇÔNICAS

Já antes do século XVIII, na Maçonaria, conforme Mackey, já se falava nas preleções sobre as colunas B e J, no entanto, parece que mais como pormenores históricos, do que como símbolos propriamente ditos. No catecismo de 1731, por exemplo, constavam descrições que contemplavam os seus nomes, as suas dimensões, o material empregado em suas construções, mas, o mesmo era mudo em relação aos seus significados simbólicos. Dudley teria sido o primeiro a dizer em sua “Naology” que:

”as colunas representavam o poder de sustentação do Grande Deus.”

Hutchinson foi o primeiro em introduzir em nossa Ordem a ideia do simbolismo delas, sendo que comentou sobre o significado dos seus nomes: Boaz (B) sendo, em sua tradução literal ‘Em ti está a força’; e Jakin (J), ‘Ele estabelecerá’, o que pode ser transposto no seu entendimento, de forma muito natural, e da seguinte maneira: “O Senhor, pelo poder de sua arte, e de seu poderio está estabelecido de eternidade a eternidade.”

O que não está longe da expressão utilizada pelo Irmão João Anatalino, que se revela direta, simples e bela: “Estabilidade com Força”.

COMENTÁRIOS FINAIS:

Recorrendo novamente ao “Vade Mécum Maçônico” do Irmão João Ivo Girardi, recolho a seguinte passagem concernente ao verbete FILOLOGIA:” Na Maçonaria é importante que se dê o valor que a filologia merece no sentido de preservar nossa literatura original, bem como a interpretação correta de seu conteúdo e de nossos rituais.”

Com certeza, é na relação direta com a última linha do parágrafo acima que foi proposto este tema. Sabemos que muitas palavras devido ao seu uso contínuo perdem muito do seu brilho e do seu significado original, e de que devido a tanto ouvi-las perdemos a noção daquela reflexão necessária ao seu entendimento.

Uma breve incursão de natureza etimológica e filológica mostrou-nos o quanto se faz necessário o estudo empreendido pelo Maçom, ou o quanto ele deverá se aprofundar, à medida que vá galgando os degraus, buscando assim o entendimento, o que ao final do caminho se converterá em sabedoria. Sem interpretar os símbolos, as origens, sem buscar estabelecer as analogias, sem fazer leituras que possibilitem conexões e uma visão mais ampla, enfim, sem a busca constante de parte do iniciado, não dá para almejar a luz, ou como já foi dito uma vez: ”Muitas de nossas desorientações se devem ao fato de não procurarmos o oriente, lugar onde nasce o sol de verdade, o étimo da palavra.”

NOTAS:

pórtico do Templo do rei Salomão(3): esta terminologia pode depender do contexto. A título de ilustração, entendamos a diferença: conforme o que já foi mencionado na primeira parte sobre a passagem bíblica em 1 Reis 7:21-22, o templo possuía um pórtico (ulam em hebraico) na frente da entrada principal. No pórtico de entrada havia duas colunas, objetos do nosso estudo: Jachin e Boaz. Então, elas eram as colunas do pórtico do templo do rei Salomão.

O outro contexto que explicamos agora e para que não haja confusão é o seguinte: Em Atos 3:11 e João 10:23, é mencionado o “Pórtico de Salomão”. Portanto, dizer "pórtico do templo do rei Salomão" está correto para descrever a entrada da estrutura original, enquanto "Pórtico de Salomão" refere-se à galeria de colunas do templo herodiano, ou seja, do templo que foi reconstruído por Herodes, mas, que recebeu o mesmo nome Templo de Salomão, por uma questão de tradição. 

CONSULTAS BIBLIOGRÁFICAS:

Internet:

“A Indelével Presença do Hebraico no Rito Escocês Antigo e Aceito” (The Indelible Presence of Hebrew in Ancient na – artigo de autoria do Ir.’. Rui Samarcos Lora – disponível em: https://www.cienciaemaconaria.com.br/index.php/cem/issue/view/3

 “JAKIN E BOAZ” - Artigo do Irmão Armando Filippi Cravo – disponível em: WWW.portalcravo.com.br/armando/index.php?view=article&catid=6:simbolismo&id+190:jakin-e-boaz

“O Nome da Coluna J – Como se escreve?” – Blog do Pedro Juk – 7 de abril de 2022 – disponível em: pedrojuk.blogspot.com

“Transformação das Colunas em Símbolo Maçônico” - Artigo do Irmão Paulo Roberto – JB NEWS, n° 1177, de 22/11/13

Revistas:

“A TROLHA”, nº 290 – “A Coluna “B” no Templo de Salomão” – Trabalho do Irmão Marcos Adriano Vargas

“A TROLHA”, nº 320 – Boaz ou Booz? – Consultório Maçônico José Castellani – pelo Ir.’. Pedro Juk

Livros:

ASLAN, Nicola. “Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbologia” Editora Maçônica “A Trolha” Ltda. 3ª Ed. 2012

BÍBLIA DE ESTUDO ARQUEOLÓGICA NVI – Editora VIDA – 3ª Reimpressão – Agosto/2014

BÍBLIA SAGRADA COM ENCICLOPÉDIA BÍBLICA ILUSTRADA – Sociedade Bíblica do Brasil - 2011

BÍBLIA SAGRADA – GAMMA Editorial e Gráfica Ltda. 1980

CADERNO DE PESQUISAS MAÇÔNICAS – 18 – “Maçonaria e Judaísmo” – Artigo do Irmão Guilherme Oak. Editora Maçônica “A Trolha” Ltda. 2001

CALVOCORESSI, Peter. “Quem é Quem na Bíblia” –José Olympio Editora - 1998

CHAMPLIN, R.N. – “Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia” – Volumes 1 e 3. Editora HAGNOS, 9ª Edição, 2008

GIRARDI, João Ivo. “Do Meio-Dia à Meia-Noite Vade Mécum Maçônico” - Nova Letra Gráfica e Editora Ltda. – 2ª Edição – 2008

 

 Ir.’. José Ronaldo Viega Alves

Or’.’ De Sant’Ana do Livramento – RS.

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