A Segunda Metade

 


Por Chad M Lacek

O que está faltando nas reuniões maçônicas?

Por muito tempo, muitos irmãos acreditaram que a Reunião Ordinária era tudo o que a Maçonaria tinha a oferecer. O ritual é executado com beleza, as palavras finais são pronunciadas, a Loja é encerrada — e todos vão embora. Cumprimentos rápidos, um “boa noite” cordial… e fim.

Mas algo parece faltar. E realmente falta.

Quando um novo maçom é iniciado, ele é introduzido a rituais profundos e simbólicos. No entanto, justamente quando surgem as perguntas mais sinceras e as reflexões mais vivas, o ambiente se dispersa. O momento ideal para o diálogo simplesmente não acontece.

A educação maçônica além do ritual

A instrução maçônica apresentada em Loja deve provocar reflexão. Cada irmão presente possui uma visão distinta sobre o tema abordado. Essa diversidade é uma das maiores riquezas da Ordem. Temos acesso a perspectivas que jamais teríamos sozinhos.

Contudo, o formato formal da sessão não permite — nem deveria permitir — um debate livre e prolongado. A ritualística exige ordem, método e disciplina. Então surge a pergunta inevitável: onde ocorre a verdadeira troca de ideias?

Infelizmente, quando ocorre, é de maneira improvisada — no estacionamento, na porta da Loja, em conversas fragmentadas que poucos escutam. A maior parte dos irmãos já seguiu seu caminho, e as percepções valiosas se perdem no ar.

Não era para ser assim.

A reunião não termina quando a Loja é fechada

A reunião “telhada” é apenas metade do encontro maçônico. Pode ser a primeira parte da noite — ou, em alguns casos, a última atividade formal. Mas historicamente existia uma segunda metade estruturada: o Banquete Ritualístico, ou Festive Board.

Ali, em torno da mesa, o que foi despertado no templo encontrava continuidade. As reflexões simbólicas ganhavam voz. As ideias eram exploradas em liberdade, dentro de uma ordem própria, com brindes, palavras fraternas e convivência planejada.

Essa segunda metade não era acessória. Era essencial.

Quando a tradição se perde

Em muitas Lojas, o Banquete deixou de existir por razões práticas: exige organização, algum custo, compromisso. Alguém precisa coordenar, confirmar presença, preparar a mesa, cuidar da logística. Quando “alguém precisa”, mas ninguém assume, a tradição desaparece.

No início, sente-se a ausência. Depois, ela se normaliza. Os novos membros, que ingressam nesse período de negligência, nem chegam a conhecer o que foi perdido. Para eles, a reunião formal parece ser tudo o que existe — embora sintam que algo está incompleto.

E então surge outra ausência: os novos irmãos deixam de voltar.

Por quê voltariam? A Loja, consciente ou não, sempre oferece um motivo para permanecer ou um motivo para se afastar. Basta observar as atitudes para perceber qual mensagem está sendo transmitida.

O valor da mesa fraterna

Sentar-se ao lado de um irmão em um único Banquete Ritualístico pode revelar mais sobre ele do que dez reuniões formais. A convivência gera laços. A informalidade estruturada cria espaço para escuta. A fraternidade se torna concreta.

O símbolo vivido à mesa complementa o símbolo praticado no templo.

Os rituais da Reunião Ordinária foram preservados ao longo dos séculos porque deixam impressões profundas e duradouras. As tradições do Banquete fazem o mesmo — e talvez ainda mais, pois conectam o ensinamento à vivência pessoal.

O agente da mudança

Muitas coisas não mudam até que alguém decida ser o agente da mudança. Desejar que a Loja seja mais viva, mais acolhedora e mais fraterna não produz resultado algum se não houver ação.

Restaurar a “segunda metade” não exige luxo exagerado, mas sim intenção clara e compromisso coletivo. Esforços valiosos sempre pedem dedicação.

Se queremos Lojas mais fortes, mais unidas e com maior retenção de novos membros, precisamos oferecer mais do que formalidade ritual. Precisamos oferecer convivência significativa.

Conclusão

A Maçonaria não termina quando o Venerável declara a Loja encerrada. Ali termina apenas a primeira metade.

Se quisermos mais profundidade, mais aprendizado e mais fraternidade real, não devemos nos contentar com menos.

Tragam de volta a Segunda Metade.

 

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