Irmãos ou Caciques? O Jogo de Poder Dentro das Lojas

 

Da Redação

A pergunta incomoda — e precisa ser feita com coragem: existe igualdade na Maçonaria brasileira?

Aprendemos, desde o primeiro contato com a Ordem, que Liberdade, Igualdade e Fraternidade compõem o tripé moral que sustenta o edifício maçônico. Mas quando observamos a realidade de algumas lojas no Brasil, percebemos que o discurso nem sempre encontra eco na prática.

 Igualdade formal x desigualdade real

No papel, todos os irmãos são iguais. O avental apaga distinções profanas. O título acadêmico, o cargo público, a posição econômica — tudo deveria ficar do lado de fora do Templo.

Mas será que fica?

Quantas vezes ouvimos dentro das lojas brasileiras frases como:

 “Fulano é importante.”

 “Beltrano é deputado.”

 “Ciclano é empresário influente.”

 “Ela é diretora de uma grande empresa.”

Importante para quem? Para a Maçonaria ou para o mundo profano?

Historicamente, mesmo após transformações profundas — como as que moldaram potências maçônicas europeias — as distinções sociais jamais desapareceram completamente. A influência profana sempre tentou atravessar as colunas do Templo.

No Brasil, não é diferente.

Embora nossa tradição tenha raízes marcantes em instituições como o Grande Oriente do Brasil e diversas Grandes Lojas estaduais, o problema não é estrutural apenas — é humano. E onde há seres humanos, há vaidade, poder e favoritismo.

 Favoritismo dentro das Lojas

A situação relatada — de perseguições veladas, bloqueio de progressões, ameaças do tipo “quando eu for Venerável, ela nunca será Mestre” — infelizmente não é isolada.

Isso não é maçonaria.

Isso é política interna mal resolvida.

Quando um futuro dirigente usa o cargo como instrumento de exclusão, ele não está defendendo o rito — está defendendo o próprio ego.

E quando a Potência fecha os olhos para conflitos recorrentes, para lojas adoecidas, para irmãos e irmãs pedindo afastamento, surge a pergunta inevitável:

Há tratamento igualitário entre as lojas?

Se uma loja foi fechada por falta de membros, por que outra, igualmente fragilizada moralmente, permanece ativa?

Se critérios são aplicados a um grupo, por que não a todos?

Igualdade não pode ser seletiva.

 Administradores e puristas: dois extremos perigosos

Outro ponto delicado também se observa no Brasil: o excesso de burocracia ou o excesso de rigidez ideológica.

De um lado, administradores que se escondem atrás do regulamento.

De outro, puristas que exigem “santos” para iniciação.

Enquanto isso, as colunas ficam vazias.

Uma loja precisa de cerca de vinte membros ativos para funcionar com estabilidade ritualística e administrativa. Lojas com sete ou oito irmãos dificilmente sobrevivem sem recrutamento responsável. Mas também não se constrói um templo sólido com materiais de baixa qualidade.

O dilema é real.

O problema surge quando aqueles que pregam rigidez moral fecham os olhos para comportamentos antiéticos de aliados políticos internos. A regra passa a valer apenas para adversários.

Isso não é zelo ritualístico.

É incoerência.

 O papel da Potência

Qual é, afinal, a função de uma Grande Loja ou de um Grande Oriente no Brasil?

 Expandir com responsabilidade.

 Preservar a harmonia.

 Garantir igualdade de tratamento.

 Manter o espírito do rito acima das vaidades individuais.

Um Grão-Mestre digno do cargo precisa saber interpretar regulamentos com inteligência e justiça — não como instrumento de perseguição, mas como ferramenta de equilíbrio.

Se uma loja está moralmente comprometida, com lideranças tóxicas, perseguições e desagregação interna, o silêncio institucional é cumplicidade.

 Quando o clima se torna insustentável

Há situações em que a loja se transforma em ambiente hostil:

 Interrupções desrespeitosas durante trabalhos.

 Ofensas públicas.

 Veneráveis omissos.

 Irmãos e irmãs pedindo transferência ou afastamento.

Nesse ponto, estamos diante de um vácuo maçônico.

Sem fraternidade real, o ritual vira teatro.

Sem igualdade, o avental vira fantasia.

Sem liberdade de consciência, a loja vira feudo.

Nesses casos, duas soluções se apresentam:

1. Intervenção firme da Potência.

2. Reativação ou fundação de nova loja (ou triângulo), preservando irmãos comprometidos com o verdadeiro espírito maçônico.

Não se trata de rebeldia — mas de sobrevivência institucional.

 A ilusão da igualdade absoluta

Se formos honestos, devemos admitir: a igualdade absoluta nunca existiu em nenhuma estrutura humana, inclusive na Maçonaria.

A questão não é negar essa realidade.

A questão é combatê-la conscientemente.

O perigo começa quando fingimos que ela não existe.

O maior dano à Ordem não é o conflito declarado — é a hipocrisia silenciosa.

 A pergunta final

A Maçonaria brasileira precisa refletir:

 Quer quantidade ou qualidade?

 Quer obediência cega ou consciência crítica?

 Quer cargos ou liderança moral?

 Quer crescimento numérico ou crescimento espiritual?

Não se constrói nada sólido sobre vaidade, favoritismo ou medo.

A igualdade na Maçonaria não é um dado automático — é uma construção permanente.

E começa quando cada irmão entende que o cargo não o torna maior do que o avental que veste.

Se a igualdade não é vivida dentro do Templo, ela jamais será defendida fora dele.

E então restará apenas o símbolo — vazio de sentido.

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