Regimes Emocionais na Maçonaria: Entre a Ordem Iniciática e a Liberdade Interior


 Introdução: o conceito moderno de emoção

O termo emoção passou a ser amplamente utilizado apenas a partir do século XIX, substituindo conceitos mais antigos como sensações, sentimentos e paixões. Hoje, compreendemos a emoção como um fenômeno complexo que envolve percepção, avaliação cognitiva, reações fisiológicas, expressão corporal e verbal, significado subjetivo, motivação e estados internos de consciência.

Longe de serem perturbações irracionais a serem dominadas pela razão, as emoções constituem forças ativas da vida relacional, moldando a identidade, as ações e o pensamento humano. Como observam Riis e Woodhead, nossa atitude emocional em relação ao mundo constrói quem somos, ao mesmo tempo em que é moldada pelas nossas experiências e interações sociais.

 A teoria dos regimes emocionais

O estudo sociológico e filosófico das emoções sempre foi fragmentado, frequentemente reduzido a perspectivas psicológicas, sociológicas ou culturais isoladas. O conceito de regimes emocionais busca superar esse reducionismo, integrando dimensões individuais, sociais e simbólicas.

Segundo essa teoria, as emoções emergem da interação dialética entre três polos:

 o indivíduo (o eu),

 a sociedade,

 os símbolos culturais e materiais.

Assim, as emoções não são apenas experiências internas privadas, mas fenômenos intersubjetivos e supraindividuais, moldados por instituições, tradições e práticas coletivas. Os regimes emocionais persistem no tempo, definem quais sentimentos são legítimos, como devem ser expressos e quais ações são socialmente aceitáveis. Desempenham, portanto, papel crucial na formação das estruturas de poder e das identidades coletivas.

 Transmissão e controle emocional nas sociedades

Os regimes emocionais são transmitidos por meio da educação, da socialização familiar, das instituições religiosas, políticas e culturais. Desde cedo, aprendemos quais emoções podem ser expressas e quais devem ser reprimidas. A famosa máxima “menino não chora” é um exemplo de norma emocional socialmente imposta.

Em contextos autoritários, emoções como raiva e contestação são desencorajadas, enquanto lealdade e submissão são incentivadas. Na sociedade contemporânea orientada ao desempenho, espera-se motivação constante, resiliência e positividade, mesmo diante do esgotamento físico e mental.

Os regimes emocionais, portanto, podem fortalecer identidades coletivas, mas também podem ser instrumentalizados para controle social, manipulação política e legitimação de estruturas de poder.

 A Maçonaria como sistema emocional

A Maçonaria constitui um sistema emocional complexo, no qual rituais, símbolos e normas sociais regulam atitudes emocionais específicas. O regime emocional maçônico não é arbitrário; está profundamente ligado à sua ética iniciática e espiritual.

Em seu aspecto positivo, a Ordem promove:

 confiança,

 respeito,

 solidariedade,

 empatia,

 fraternidade e proximidade emocional.

Espera-se do maçom autodisciplina, serenidade, autocontrole e moderação. Explosões emocionais como raiva, histeria ou fúria são consideradas incompatíveis com a dignidade iniciática.

Os rituais, por sua vez, buscam evocar emoções profundas — reverência, humildade, admiração —, mas sempre dentro de uma estética controlada e solene. O ideal é ser tocado simbolicamente, sem cair em sentimentalismo descontrolado ou racionalismo frio.

A discrição emocional é igualmente valorizada: experiências iniciáticas não devem ser exibidas fora da Loja, preservando a integridade simbólica e o senso de comunidade.

 Normas emocionais e ética fraternal

O discurso maçônico pressupõe sinceridade, veracidade e autorreflexão. Arrogância, orgulho social e competição são considerados emocionalmente indesejáveis. A igualdade simbólica na Loja exige humildade e respeito mútuo, independentemente da posição social ou profana.

Assim, o regime emocional maçônico constrói um ideal de homem equilibrado, moderado e reflexivo — um arquétipo moral e espiritual.

 O lado oculto dos regimes emocionais maçônicos

Apesar de seus aspectos positivos, os regimes emocionais também possuem dimensões problemáticas. A Maçonaria estrutura-se em uma hierarquia de graus e funções, e as emoções são mediadas por relações de poder. Certos sentimentos — como obediência, orgulho institucional e culpa — são reforçados, enquanto raiva, crítica e resistência são desencorajados.

Essa dinâmica pode limitar a reflexão crítica e a maturidade emocional, gerando conformismo e repressão interna.

A forte valorização do autocontrole pode levar os irmãos a internalizar a ideia de que emoções espontâneas são fraquezas. Isso pode resultar em tensão psicológica, culpa, autodesprezo e dificuldade de reconhecer necessidades emocionais legítimas.

 Masculinidade, exclusão e censura emocional

Outro aspecto sensível é a codificação emocional dentro de normas tradicionais de masculinidade. Emoções consideradas “suaves” — como empatia profunda, sensibilidade ou vulnerabilidade — podem ser marginalizadas como sinais de fraqueza ou falta de virilidade.

Irmãos que não se encaixam no modelo emocional dominante podem ser vistos como imaturos, instáveis ou pouco confiáveis, sofrendo estigmatização e isolamento. A autocensura emocional (“não devo sentir isso”) torna-se comum, resultando em superficialidade afetiva e perda de autenticidade interior.

A cultura de “harmonia” pode, paradoxalmente, gerar conflitos reprimidos, hipocrisia coletiva e empobrecimento da vida emocional.

 Entre ordem e liberdade interior

Os regimes emocionais são necessários para criar coesão, identidade e estabilidade social. Contudo, quando excessivamente normativos, podem sufocar a diversidade emocional e a liberdade interior.

A Maçonaria oferece um espaço relativamente seguro para o desenvolvimento emocional, mas também corre o risco de cristalizar estruturas rígidas que impedem o crescimento autêntico do indivíduo.

 Conclusão: a iniciação como emancipação emocional

A reflexão sobre os regimes emocionais na Maçonaria revela uma tensão fundamental entre ordem iniciática e liberdade interior. O verdadeiro trabalho maçônico não consiste apenas em conformar-se às normas, mas em tornar-se consciente delas, discernir suas limitações e transformá-las.

O iniciado autêntico não reprime suas emoções, mas as integra, compreende e transcende. A maturidade emocional não nasce da censura, mas da consciência.

Portanto, cabe aos maçons questionar se desejam apenas preservar o status quo emocional ou se estão dispostos a reformar suas estruturas internas, promovendo uma fraternidade mais autêntica, inclusiva e profundamente humana.

A verdadeira iniciação talvez não seja apenas a lapidação da pedra bruta moral, mas também a libertação do ser emocional.

 Fonte: Maçonaria Sueca

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