Yggdrasil: A Árvore Eterna do Norte Medieval e sua Presença na Simbologia Maçônica

 

Da Redação

A árvore cósmica Yggdrasil, eixo central da mitologia nórdica, atravessou séculos e fronteiras culturais até encontrar lugar também no vocabulário simbólico da Maçonaria. O tema foi explorado por Mark Dreisonstok, editor do Scottish Rite Journal, que ao estudar literatura medieval inglesa e germânica na Georgetown University, deparou-se com a força simbólica dessa árvore eterna do Norte.

Yggdrasil na Mitologia Nórdica

Na tradição escandinava, Yggdrasil ocupa o centro do universo. Suas raízes penetram múltiplos planos da existência: o mundo dos homens, rios sagrados e o submundo de Hel. Seus galhos sustentam os céus. A árvore aparece nas Eddas — especialmente na Prose Edda de Snorri Sturluson — como o local onde os deuses se reúnem diariamente em conselho.

Segundo o teólogo G. Ronald Murphy, em Tree of Salvation, artistas medievais do Norte retrataram Yggdrasil como um imponente abeto perene. Uma de suas funções mais sublimes manifesta-se no Ragnarök, o crepúsculo dos deuses: quando o mundo é destruído, a árvore se abre para proteger os últimos seres humanos, preservando-os até o surgimento de uma nova terra, eternamente verde.

A narrativa mítica é rica em símbolos: a serpente Nidhogg rói suas raízes no submundo; uma águia paira no topo; e o esquilo Ratatoskr corre entre ambos, fomentando discórdia. Temos aqui o eterno conflito entre forças inferiores e superiores — uma imagem que ecoa em diversas tradições espirituais.

Yggdrasil e a Interpretação Maçônica

O simbolismo de Yggdrasil não passou despercebido à literatura maçônica. Em 1879, a Loja Arminius, de Washington, D.C., publicou o Handbuch für deutsche Freimaurer. Seu autor, Hermann H. Gerdes, viu na árvore “uma bela representação simbólica da Maçonaria”: assim como Yggdrasil une regiões celestes, terrenas e infernais, a Maçonaria conduz o homem da escuridão à luz.

O célebre autor maçônico Albert Mackey, em sua Encyclopedia of Freemasonry, descreve Yggdrasil como a árvore mais sagrada da mitologia escandinava, ligando céu, terra e inferno por meio de três raízes que alcançam diferentes esferas cósmicas. Ele cita ainda o reverendo George Oliver, que a associa à “Escada Teológica dos Mistérios Góticos”.

Essa imagem aproxima Yggdrasil da simbologia da Escada Mística maçônica — seja a escada de três degraus (Fé, Esperança e Caridade) do Primeiro Grau, seja a escada das Sete Artes Liberais e Ciências no sistema do Scottish Rite. A escada representa a ascensão progressiva do conhecimento humano, filosófico e espiritual — movimento vertical que encontra paralelo na estrutura cósmica da árvore nórdica.

A Visão Universalista de Manly P. Hall

Outro autor que integrou Yggdrasil ao pensamento esotérico ocidental foi Manly P. Hall, em sua obra clássica The Secret Teachings of All Ages. Hall interpreta a árvore escandinava como sustentáculo de nove mundos, encerrados em uma décima esfera misteriosa — o “Ovo Cósmico”.

Ele traça um paralelo com a Árvore da Vida da Cabala judaica, sugerindo que o símbolo da árvore cósmica é um arquétipo transcultural. A ilustração de J. Augustus Knapp para a obra de Hall retrata Yggdrasil com uma águia no alto, uma serpente abaixo e um casal humano protegido por seus galhos — possível representação da regeneração da humanidade após o cataclismo.

Entre o Natural e o Arquitetônico

Grande parte dos símbolos maçônicos é de natureza arquitetônica e artesanal: o esquadro, o compasso, o Templo de Salomão. São instrumentos do trabalho humano, voltados ao aperfeiçoamento da “pedra bruta”.

Yggdrasil, ao contrário, é um símbolo vivo e orgânico. Não é obra das mãos humanas, mas manifestação direta da ordem divina na natureza. Ela representa a totalidade da criação, unindo céu, terra e submundo. É ponto de encontro dos deuses — assim como o templo é ponto de encontro dos homens em busca da Verdade.

A incorporação de Yggdrasil ao pensamento maçônico revela a amplitude cultural e espiritual da Ordem. Ao lado de símbolos construtivos e arquitetônicos, surge uma imagem natural que recorda ao homem sua inserção no cosmos.

A Árvore do Mundo amplia a reflexão maçônica para além do edifício material e aponta para uma visão universal, orgânica e espiritual da existência. Ela simboliza proteção nos momentos de crise, centralidade moral no mundo e conexão permanente com o Grande Arquiteto do Universo.

Assim, Yggdrasil não é apenas um mito do Norte medieval — é também um convite à elevação espiritual, à integração dos opostos e à contemplação da unidade que sustenta toda a criação.

 

Comentários

Popular Posts

Hipertrofia do Ego na Maçonaria: Uma Sombra no Caminho Iniciático

O Templo de um Verdadeiro Iniciado - Conjecturas à Luz da Maçonaria Contemporânea

Maçonaria e Cristianismo: Diálogo ou Conflito?