207 - A CONEXÃO TEMPLÁRIA: A ORIGEM DE UM DOS MAIORES MITOS DA MAÇONARIA

 


Por John L. Cooper III

O mito por trás de uma das histórias mais populares da Maçonaria

Todos gostam de uma boa história, e a ligação entre os Cavaleiros Templários e a Maçonaria é, sem dúvida, uma narrativa fascinante. O problema é que, apesar de ser uma história envolvente, ela não possui uma base histórica comprovada.

Livros como Born in Blood, de John Robinson, popularizaram a ideia de que a Maçonaria seria, na verdade, uma continuação secreta da antiga Ordem dos Cavaleiros Templários. Segundo essa teoria, após a extinção oficial da Ordem em 1307, os templários teriam encontrado refúgio nas lojas de pedreiros da Escócia, assumindo gradualmente o controle dessas organizações. Dessa forma, teriam sobrevivido de maneira clandestina até reaparecerem publicamente com a criação da primeira Grande Loja da Inglaterra, em 1717.

É uma narrativa interessante, mas não existem evidências históricas que comprovem essa ligação direta.

Curiosamente, a verdadeira história de como os templários passaram a fazer parte do imaginário maçônico é ainda mais interessante — e essa sim possui fundamentos históricos.

A Lenda

Independentemente das várias teorias sobre a origem da Maçonaria na Inglaterra e na Escócia, sabemos que quatro lojas maçônicas de Londres fundaram a primeira Grande Loja em 1717. Nos anos seguintes, outras lojas se uniram à nova instituição ou receberam autorização para criar novas lojas.

A Maçonaria rapidamente se espalhou pelo continente europeu, especialmente pela França e pela Alemanha.

Ao chegar ao continente, a estrutura simples dos três graus tradicionais — conhecida como Maçonaria Simbólica ou Maçonaria dos Antigos Ofícios — começou a receber novos elementos. Surgiram diversos graus adicionais, que posteriormente foram organizados em diferentes ritos maçônicos.

Muitos desses novos graus incorporaram histórias e lendas que buscavam explicar uma origem mais antiga e misteriosa para a Maçonaria. Uma dessas ideias afirmava que a instituição teria suas raízes nas Cruzadas, quando cavaleiros europeus teriam trazido conhecimentos secretos da Terra Santa.

Um dos primeiros graus a apresentar essa narrativa foi o chamado Grau de Mestre Escocês. Segundo a lenda associada a esse grau, cavaleiros escoceses teriam encontrado um grande segredo escondido em uma abóbada subterrânea de Jerusalém e levado esse conhecimento de volta para a Escócia.

Nesse momento, porém, ainda não havia uma ligação direta com os Cavaleiros Templários. Essa associação surgiria posteriormente.

O contexto histórico

Durante o século XVIII, a Maçonaria ganhou enorme popularidade na França e na Alemanha. Os novos ritos e graus chamavam especialmente a atenção da aristocracia europeia.

Para muitos nobres, a ideia de que a Maçonaria teria uma origem ligada aos cavaleiros medievais era muito mais atraente do que a ideia de que ela tivesse surgido das antigas corporações de trabalhadores da construção.

Uma origem ligada à cavalaria, aos guerreiros nobres e às tradições medievais conferia prestígio e uma aura de mistério à instituição.

Foi nesse ambiente que surgiu uma das figuras mais importantes para a criação da lenda templária dentro da Maçonaria: o Barão Karl Gotthelf von Hund und Alten-Grotkau.

Nascido em 1722, von Hund tornou-se maçom em Frankfurt, em 1742. No ano seguinte, viajou para Paris, onde assumiu posição de destaque em uma loja maçônica de Versalhes.

O surgimento do mito

Enquanto estava em Paris, von Hund teria sido procurado por um personagem misterioso conhecido como o “Cavaleiro da Pena Vermelha”.

Até hoje não se sabe se esse indivíduo era realmente ligado ao príncipe Carlos Eduardo Stuart, conhecido como Bonnie Prince Charlie, ou se tudo não passou de uma fraude criada por alguém interessado em manipular von Hund.

O misterioso cavaleiro afirmou ser um representante da antiga Ordem dos Cavaleiros Templários e apresentou a von Hund uma suposta lista de Grão-Mestres templários que teriam sobrevivido secretamente após a morte de Jacques DeMolay, último Grão-Mestre oficial da Ordem, executado em 1314.

Segundo essa narrativa, os templários teriam escapado para a Escócia e ajudado Robert Bruce na Batalha de Bannockburn, em 1314. Depois disso, teriam permanecido aliados secretos dos reis escoceses.

A história contava ainda que os templários teriam ingressado nas lojas de pedreiros escocesas para permanecer ocultos durante séculos, e que os maçons seriam, na verdade, descendentes desses cavaleiros.

Von Hund acreditou nessa história e retornou à Alemanha convencido de que possuía um conhecimento secreto.

O Rito da Estrita Observância

A principal consequência das ideias de von Hund foi o desenvolvimento do Rito da Estrita Observância.

Embora ele não tenha criado sozinho o movimento, tornou-se sua principal liderança e responsável por divulgar a ideia de que os maçons seriam herdeiros dos Cavaleiros Templários.

O nome “Estrita Observância” vinha do compromisso dos membros com uma suposta obediência a “superiores desconhecidos” — líderes secretos que, segundo a lenda, seriam os sobreviventes da antiga Ordem do Templo.

Von Hund acrescentou novos graus à estrutura maçônica tradicional:

Mestre Escocês;

Noviço;

Cavaleiro Templário;

Cavaleiro Professo.

O novo rito cresceu rapidamente e conquistou grande popularidade na Alemanha.

Muitos maçons se sentiram atraídos pela ideia de pertencer a uma organização que supostamente carregava a herança dos lendários cavaleiros medievais.

Afinal, os templários representavam riqueza, poder, coragem e prestígio.

Porém, assim como surgiu rapidamente, o Rito da Estrita Observância também entrou em declínio.

Conflitos internos e disputas entre seus líderes enfraqueceram o movimento, e após a morte de von Hund, em 1776, o rito perdeu sua força.

No mesmo ano, Bonnie Prince Charlie foi questionado sobre uma possível ligação com a criação do rito e negou qualquer participação.

Ficou então evidente que von Hund havia sido enganado por uma história sem fundamento.

O legado da lenda templária

E assim nasceu a chamada “Lenda Templária” dentro da Maçonaria.

Hoje ainda existem graus e organizações maçônicas que fazem referência aos templários, como o 30º grau do Rito Escocês Antigo e Aceito, a Ordem do Templo e a Ordem DeMolay.

Entretanto, essas organizações não afirmam que a Maçonaria seja uma continuação secreta dos Cavaleiros Templários.

Elas utilizam a imagem templária como símbolo de valores como honra, coragem, fidelidade e ideal de cavalaria.

Portanto, quando alguém afirma que a Maçonaria descende diretamente dos antigos Cavaleiros Templários, é importante conhecer a verdadeira história.

A realidade também é uma grande narrativa — uma história de como mitos, símbolos e tradições foram incorporados ao fascinante universo maçônico.


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