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Mostrando postagens de janeiro, 2026

A Bíblia não existe

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Por Pierre Gandonniere Costuma-se falar da Bíblia, da Torá, do Alcorão, do Antigo e do Novo Testamento como se fossem livros únicos, estáveis e perfeitamente definidos. Estritamente falando, nenhum deles existe dessa forma. Ainda assim, esses textos deram origem às três grandes religiões monoteístas, conhecidas como as “religiões do Livro”. O paradoxo é evidente. No início, não havia um livro, mas a Arca da Aliança. Segundo a tradição, construída por ordem divina transmitida a Moisés no Monte Sinai, ela permitia ao povo hebreu levar consigo seu Deus único. No seu interior estariam as tábuas da Lei — o Decálogo —, o primeiro texto escrito que anunciaria, de modo embrionário, um livro sagrado. Com a destruição do Primeiro Templo de Jerusalém, em 586 a.C., a Arca desapareceu, levando consigo qualquer vestígio material desse texto original. O que hoje chamamos de Antigo Testamento não é um livro, mas uma coleção de até 46 textos, reunidos ao longo de séculos. São fragmentos de orig...

Realmente Ainda Vale a Pena Ser Maçom? Reflexões de um Eterno Sonhado

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Por Dário Angelo Baggieri No Oriente Eterno, sob o céu de estrelas fixas, onde o Compasso traça círculos de mistério, pergunto ao eco das colunas B e J, no átrio da entrada do Templo: “Realmente ainda vale a pena ser Maçom?” O mundo gira em turbilhões de luzes falsas: telas que hipnotizam, ouro que escorre como areia, homens acorrentados a correntes invisíveis, vendendo a alma por likes , relacionamentos virtuais e efêmeros, cheios de promessas vazias. E a Loja? Ainda pulsa com o malhete do Venerável em sua condução? Ou tornou-se uma relíquia empoeirada, esquecida no porão do tempo? Lembro-me do primeiro toque da Espada da Justiça, fria contra o peito nu, colocada pelo Irmão Sacrificador, quando adentrei o Templo e firmei a promessa de retificar as arestas espiculadas de minhas intolerâncias; de lapidar a pedra tosca e bruta que sou, transformando-a em pedra polida e perfeita. Mas e hoje? Nas ruas de nossas cidades ainda nos deparamos com Irmãos de corações ávidos...

De Auschwitz a Nuremberg: Do Horror da Barbárie ao Império do Direito

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O dia 27 de janeiro ocupa um lugar singular na memória da humanidade. Foi nessa data, em 1945, que o Exército Vermelho libertou o campo de extermínio de Auschwitz, revelando ao mundo a dimensão do horror da Shoah. Mais do que o fim de um campo de concentração, aquele momento marcou o colapso moral de uma civilização que havia permitido que o ódio, a desumanização e a burocracia da morte se tornassem política de Estado. Diante das imagens de corpos famintos, de vidas aniquiladas e de uma racionalidade pervertida a serviço do extermínio, tornou-se evidente que o esquecimento não poderia mais ser uma opção. A guerra e seus crimes não podiam ser varridos para debaixo do tapete da História. A própria ideia de civilização estava ferida, e o direito, até então frequentemente impotente diante da força, precisava assumir um novo papel. É nesse contexto que surge o Processo de Nuremberg, iniciado em 20 de novembro de 1945 e encerrado em 1º de outubro de 1946. Pela primeira vez na história ...

Boaz ou Booz? Jaquim ou Jakin? Uma revisão sobre a etimologia dos nomes das colunas B e J (Parte II – Final)

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OUÇA O ARTIGO Ir.’. José Ronaldo Viega Alves(*) Na primeira parte conhecemos algo a respeito das origens e do significado da palavra BOAZ, nome atribuído à primeira das colunas do Templo do rei Salomão. Na sequência, conheceremos a palavra JACHIN, nome que corresponde à segunda coluna do pórtico do Templo do rei Salomão (3) . VARIAÇÕES DE ESCRITA A propósito o Ir.’. Pedro Juk, em seu blog, respondendo a uma pergunta que lhe foi endereçada sobre a grafia que mais correta, respondeu assim: “... a despeito de existirem várias corruptelas que nos são apresentadas (Jakim, Jakin, Jaquim, Jackin, etc.), a palavra grafada como Jachin, encontrada também nas línguas anglo-saxãs, nos parece ser a mais indicada.” (Juk, 2022) COMENTÁRIOS: Acabamos de ver um trecho em que o Ir.’. Pedro Juk nomeia algumas das variações que a palavra apresenta, o que o leitor deve ter em mente, pois, dependendo do autor, é possível que em algumas das transcrições que traremos durante o desenvolvimento do trabalho a gr...

Na Maçonaria, o Maior Poder Não é Ter Um Título, é Ter Uma Consciência.

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OUÇA O ARTIGO Da Redação Há irmãos que entram na Loja como se estivessem lançando uma campanha eleitoral: um olhar de estrategista, um sorriso superficial, um aperto de mão calculado e aquele brilho no olhar que diz: “Veremos qual é a minha posição…” Más notícias: a Loja não é uma sala de reuniões. E pior ainda: a Maçonaria não é um lugar onde se “toma o poder”. É um lugar onde se tem — na melhor das hipóteses — um despertar brutal. Não importa o quanto você se sinta no Oriente, use um cordão mais chamativo, pronuncie três palavras solenes e fale em tom moderado… o malhete não concede superpoderes. Não transforma um ego em sábio. Transforma, principalmente, um ego em… um ego com um malhete. E o ego com um malhete é uma espécie barulhenta: é audível, é perceptível e cansa a todos. A grande ilusão é confundir cargo com coroa. Na Maçonaria, um cargo deveria ser um serviço. Mas alguns o veem como uma promoção, uma vingança ou uma consagração. Eles querem “sua” plataforma, “seu” moment...

Léon Denis e a Maçonaria: Espiritualidade, Razão e Fraternidade

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OUÇA O ARTIGO Da Redação Léon Denis (1846–1927) é reconhecido como um dos maiores pensadores do Espiritismo francês e principal continuador da obra de Allan Kardec. Menos conhecida, mas igualmente relevante, é sua ligação com a Maçonaria, instituição com a qual compartilhou valores fundamentais e para a qual ofereceu significativa contribuição filosófica e espiritual. Filósofo, escritor e conferencista, Denis foi também um maçom ativo, participando dos debates intelectuais de seu tempo e aproximando o pensamento espírita da tradição iniciática maçônica. Sua atuação contribuiu para enriquecer as reflexões da Ordem sobre moral, espiritualidade, destino humano e responsabilidade ética. Os princípios defendidos por Léon Denis — como a busca da verdade, a fraternidade, o aperfeiçoamento moral e a evolução espiritual do ser humano — dialogam diretamente com os fundamentos da Maçonaria. Para ele, o progresso humano não poderia ocorrer sem ética, conhecimento e consciência espiritual, ...

Que Haja Harmonia: A Mesa Maçônica

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OUÇA O ARTIGO Por Andrew Hammer “Tudo o que fizeres, tudo o que comeres, tudo o que ofereceres em sacrifício, tudo o que deres em caridade, todas as austeridades que praticares, tudo o que fizeres, faze-o como uma oferta a Mim.” Bhagavad-Gita 9: 27 A convivência à mesa e a Maçonaria são inseparáveis. Historicamente, o banquete maçônico é uma parte essencial de qualquer reunião de irmãos, a ponto de um dos motivos declarados para a convocação de uma “Grande Loja” em Londres, em 1717, ter sido restaurar o banquete solsticial realizado em nome de um santo cristão adotado. E, na Escócia, pouco mais de cem anos antes, três dos treze pontos do Segundo Estatuto de Schaw, de 1599, tratam dos banquetes realizados para aprendizes e companheiros de ofício. Ao fazer tal afirmação, certamente não se pretende sugerir que o ato de comer seja mais importante do que o ritual ou a filosofia da Arte. Muito pelo contrário: a antiga convivência maçônica à mesa estava entrelaçada com ambos. Assi...

A Juventude e o Futuro da Maçonaria

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OUÇA O ARTIGO Da Redação O declínio demográfico figura hoje entre os desafios mais sérios enfrentados pelas sociedades ocidentais, ao lado do esgotamento dos recursos naturais, da degradação ambiental e da necessidade de sustentar uma ordem mundial equilibrada. Processos como emancipação individual, globalização, urbanização e avanço tecnológico tornaram a formação de famílias menos atrativa no plano pessoal, embora, paradoxalmente, representem uma ameaça estrutural para os Estados e para a macroeconomia. Com a taxa de fertilidade abaixo do nível de reposição, o aumento da expectativa de vida e o envelhecimento populacional, o peso sobre os sistemas previdenciários cresce de forma contínua. Em resposta, governos recorrem a políticas de incentivo à natalidade, como licenças parentais e subsídios, além de estimular a imigração. Tais medidas, contudo, frequentemente impactam tradições culturais, alteram costumes e geram novos desafios sociais. A fragilidade demográfica resulta ainda...

A Princesa de Lamballe: entre a fidelidade à Coroa e o protagonismo maçônico

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  OUVIR O ARTIGO Da Redação Marie-Thérèse Louise de Carignan-Savoie, Princesa de Lamballe (1749–1792), figura entre as mulheres mais emblemáticas do Antigo Regime francês. Duplamente célebre, sua memória atravessa a história tanto pelo trágico fim durante os massacres revolucionários de setembro de 1792 quanto por sua atuação destacada na Maçonaria feminina do século XVIII. De origem aristocrática italiana, pertencente a um ramo júnior da casa real do Piemonte-Sardenha, tornou-se francesa ao casar-se, aos 17 anos, com Louis-Alexandre de Bourbon-Lamballe, união infeliz que terminou precocemente com a morte do marido. Viúva, sem filhos e protegida pelo Duque de Penthièvre, seu sogro, foi introduzida na corte de Luís XV, onde consolidou uma profunda amizade com Maria Antonieta. Com a ascensão de Luís XVI ao trono, a princesa foi nomeada Superintendente do Palácio de Versalhes, posição que, apesar das críticas e invejas, simbolizava a confiança pessoal da rainha. A lealdade inaba...

Como Gotas de Água: A Ação Silenciosa e Transformadora do Maçom

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OUVIR O ARTIGO Da Redação A imagem das gotas de água que, pacientemente, escavam a pedra calcária de uma caverna é uma das metáforas mais eloquentes para compreender o papel do maçom no mundo. Isoladamente, cada gota parece frágil, quase insignificante. No entanto, pela constância e pela repetição, ela cria primeiro uma pequena marca no chão da caverna, depois um sulco, em seguida um canal, até que, ao longo do tempo, surge um rio subterrâneo capaz de alisar a rocha e encontrar seu caminho até o mar aberto da grande vida. Assim também somos nós, maçons. Somos chamados a ser essas gotas perseverantes, que atuam silenciosamente, mas de forma contínua, moldando a si mesmas e ao ambiente ao redor. Juntos, formamos um grande corpo de água que flui em direção ao oceano da sabedoria. Nesse oceano simbólico, navegamos munidos do esquadro e do compasso, nossos talismãs morais e espirituais, como bons marinheiros animados pelo desejo de descobrir novas terras de verdade, conhecimento e reali...

A Egrégora Maçônica: Fato, Ficção ou Responsabilidade Compartilhada?

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OUVIR O ARTIGO Da Redação Existem palavras que circulam nas lojas maçônicas como se fossem verdades autoevidentes, repetidas com naturalidade, mas nem sempre plenamente compreendidas. “Egrégora” é uma delas. O termo costuma ser invocado para explicar uma reunião que “se estabelece”, um forte laço de unidade entre os irmãos ou, ao contrário, uma atmosfera pesada, dispersa e pouco fecunda. Para alguns, trata-se de uma realidade quase palpável; para outros, de uma expressão conveniente; e há ainda quem a considere uma deriva excessivamente esotérica. Afinal, a egrégora maçônica é fato ou ficção? A resposta depende, sobretudo, de como escolhemos compreendê-la. Em sua forma mais extrema, a egrégora é apresentada como uma entidade autônoma, uma espécie de forma invisível criada pelo grupo e capaz de existir independentemente dele. Levado ao pé da letra, esse entendimento se apoia mais na crença do que na observação. Torna-se problemático quando passa a explicar tudo: “a loja quer”, “a eg...